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ESSES PEQUENOS
CUPIDOS


Coleo
Sabrina a cegonha chegou!  n. 79


Digitalizado por: Palas Atenia
Revisado por: Danielle Fernandes


Copyright  2000 by Harlequin Books S.A.
Originalmente publicado em 2000 pela Silhouette Books,
diviso da Harlequin Enterprises Limited.
Todos os personagens desta obra so fictcios.
Qualquer semelhana com pessoas vivas ou mortas
ter sido mera coincidncia.
Ttulo original: Those matchmaking babies
Traduo: Natrcia P. N. Silva
Editora e Publisher: Janice Florido
Editora: Fernanda Cardoso
Copyright para a lngua portuguesa: 2002
EDITORA NOVA CULTURAL LTDA.




Storkville, E.U.A.
Os habitantes de Storkville ainda se lembram do dia em que a cidade foi rebatizada. No mais famosa apenas por seus bairros seguros e pela paisagem idlica, Storkville se tornou a cidade dos bebs! Claro que alguns, como Margheritte Anderson, ainda insistem em usar certa receita caseira para garantir a chegada da cegonha!
No entanto, seja nascendo nos repolhos ou chegando em casa atravs do servio de entrega, o povo de Storkville adora acalentar uma criana, assim como a emoo do primeiro amor, ou o esplendor de uma segunda chance


 

PRLOGO

Os bebs choravam novamente. Choravam com toda a fora de seus pequenos pulmes, deixando-a extenuada. O zumbido em sua cabea aumentava, assim como o desespero, que ameaava enlouquec-la.
Ela os amava, de verdade. Mas queria voltar a ser livre, ser responsvel por si apenas, no por duas vidas pequenas. Queria ter a liberdade de acordar pela manh ciente de que, qualquer que fosse a deciso que tomasse, certa ou errada, s afetaria a ela.
Liberdade
Dirigia sem pressa, atravs das ruas tranqilas de Storkville, encolhida atrs do volante do carro velho e decrpito. Claro que havia a tia deles, sua irm, para ajudar a cri-los. Mas os dois bebs eram seus Seus para que se preocupasse, cuidasse e alimentasse.
Lgrimas amargas inundaram-lhe os olhos. No podia mais viver to deprimida. Era jovem demais para se sentir to velha e desamparada. Se houvesse algum modo de
Foi ento que avistou a residncia.  primeira vista, parecia ter sido construda em outra era, quando tudo era mais simples. Quando as famlias criavam seus bebs e ficavam ao lado deles, para v-los crescer e alcanar a maturidade, em vez de negar-lhes qualquer ligao e em seguida desaparecer para sempre.
A imponente manso em estilo vitoriano, com janelas em arco e colunas de pedra entalhada, de aparncia formal e elegante, aconchegante e convidativa, chamou sua ateno. Observou-a bem, diminuindo a velocidade. A tabuleta do lado de fora indicava tratar-se de uma creche.
Era um local conhecido por seu amor pelos bebs e por crianas de todas as idades. Atrs de si, os gmeos de rostos idnticos, instalados com conforto em seus assentos presos ao banco. Enfim, pararam de chorar, embora seus gritos ainda ecoassem em seus ouvidos. Mas logo recomeariam com a choradeira.
Suspirou, estudando a casa. Um momento mais e a creche ficaria para trs, assim como tudo em sua vida.
De repente, algo lhe ocorreu: havia uma maneira
Endireitou a coluna, dando-se conta do que tinha de fazer.



CAPTULO I

 Mary Hellen! Mary Hellen! Venha ver! Depressa! 
No quarto, Mary Hellen Brady sentiu o corao disparar. Quem a chamava era Penny Sue, de quinze anos, sua voluntria de meio expediente na creche que acabara de inaugurar. Teve um estranho pressentimento de que no se tratava apenas de exagero da parte da garota. Dessa vez devia ser algo srio.
 Espere aqui  disse ao beb de dezoito meses de que cuidava.
Colocou-o no bero e afastou-se, para ver o que estava acontecendo.
Mary Hellen tentou se acalmar ao dirigir-se apressada  porta do manso vitoriana que herdara de sua tia Jane. At que ouviu Margheritte:
 Oh, meu Deus, Mary Hellen, voc no vai acreditar! Chegando  entrada, ela descobriu, aliviada, que nada ocorrera com alguma de suas crianas embora devesse haver algum problema.
Foi ento que seu queixo caiu ao se aproximar das duas voluntrias e ver os dois bebs.
Tia Margheritte, como era tratada ali, segurava um deles nos braos, e Penny Sue, o outro.
Os bebs usavam roupas idnticas e pareciam ter sado dos assentos infantis, tambm idnticos, que se encontravam no piso.
Penny Sue virou-se para Mary Hellen, sorrindo, os olhos verdes brilhando. O que faltava nela em experincia no trato com os pequenos sobrava em entusiasmo. A jovem adorava bebs, e aquele que ela segurava agarrava-se a uma mecha de seus cabelos ruivos.
 Voc viu isto, Mary Hellen? Encontrei-os ali, quando abri a porta.  Penny ergueu o beb, como se querendo apresent-lo.  Como nos filmes antigos.
Mary Hellen teve um pressentimento de que, ao contrrio das pelculas a que a menina se referira, os bebs no estariam de volta aos verdadeiros pais no final de duas horas.
Cerrou os lbios.
 S falta o som de violinos tocando e neve caindo. Falando nisso  Mary Hellen fitou o cu cinzento e sentiu cheiro de chuva no ar   melhor lev-los para dentro, antes que a chuva caia.
Enquanto as duas mulheres entravam na cozinha, que cheirava a po doce recm-sado do forno, uma cortesia de tia Margheritte, Mary Hellen pegou os assentos infantis e as seguiu. Deixou-os no cho, perto da soleira. Pegou o pacote de fraldas descartveis que viera junto e fechou e girou a chave na fechadura.
E pensar que a manh comeara to bem Conseguira mais dois clientes e a promessa de mais trs na prxima semana. Os negcios comeavam a melhorar, e pelo jeito logo seria capaz de compensar tia Margheritte e Penny Sue pelo trabalho que vinham desempenhando.
Mary Hellen virou-se para Penny Sue, esperando que a garota lhe desse algumas respostas.
 Notou algo ou algum quando os encontrou, Penny Sue?
Parecendo fascinada pelo beb, Penny Sue nem sequer se deu ao trabalho de levantar a vista. Em vez disso, deu de ombros.
 No, no vi nada.
Margheritte, que segurava o outro, permanecia parada perto de Mary Hellen. Curiosa, Mary Hellen correu as costas da mo pelo rostinho rosado. No estava com frio. Olhos azuis e brilhantes a fitaram, e ele resmungou.
 Pelo jeito, no ficaram muito l fora. Penny Sue, o que a levou a ir at l?
 Eu vinha em direo  cozinha, morrendo de vontade de provar os cookies de tia Margheritte.  Sorriu para Margheritte e tornou a se virar para Mary Hellen.  Ento, achei ter ouvido algum bater.
Se a pessoa que deixou os bebs batera na porta, significava que devia estar por perto. Talvez apenas tivesse dado as costas quando viu Penny Sue. Podia ser que a menina tivesse visto um relance que fosse de quem abandonara os pequerruchos.
 No havia ningum por perto? A garota balanou a cabea.
 A primeira coisa que vi foram os bebs. Chamaram minha ateno porque faziam barulho com a boca. Em seguida, a chamei.
Mary Hellen tentou ser paciente.
 Ou seja: no viu ningum?!
De repente, as pupilas de Penny Sue brilharam.
 Sim! Eu vi uma pessoa, uma mulher.
 Quem era?
 No sei, nunca a tinha visto antes. Vi que se afastava apressada e
Vindo em socorro de Penny, tia Margheritte mostrou um pedao de papel que acabara de encontrar:
 Veja, Mary Hellen, um bilhete. Estava dentro da manta.
Mary Hellen pegou o pedao de papel que Margheritte estendia e se ps ler.
 O que diz a?  Penny Sue quis saber, ansiosa.
 No muito.  Desapontada, Mary Hellen tornou a ler, em voz alta desta vez:  "Sei que podero cuidar deles melhor que eu".
O recado fora escrito a mo e, pelo jeito, seu autor agira por impulso.
Margheritte segurou a nuca da criana e apoiou sua testa contra o ombro, assentindo, pensativa, ao fitar o papel.
 Para ter tanta certeza de que cuidaremos bem deles, deve ser algum daqui da cidade.
 Ou pode ter escrito isso para despistar  disse Penny Sue, excitada.  Talvez seja uma seqestradora, ou quem sabe
Mary Hellen suspirou. Para ela bastava. Pousou a mo no ombro de Penny Sue.
 Vamos parar com as adivinhaes  sugeriu, com um sorriso.   melhor chamarmos o delegado Malone. Ele resolver o problema.
O delegado Tucker Malone fechou o pequeno bloco de anotaes e o guardou no bolso da jaqueta, junto com a caneta. Ento, olhou de Penny Sue para Mary Hellen.
  tudo o que tm a dizer? Mary Hellen trocou olhares com Penny Sue. Era bvio que a jovem estava nervosa, mas ela sabia que isso se devia  conduta do delegado, e no por estar escondendo algum segredo.
  tudo o que sabemos, Tucker.  Mary Hellen ajeitou os cabelos.  Seja quem for que tenha deixado os pequenos na soleira da creche, era uma pessoa estranha.
 Para Penny Sue  Tucker ressaltou, observando-a. Era bvio que o homem da lei no dera importncia a nada do que Penny Sue falara.
 Mas eu  Aflita, Penny Sue comeou a protestar, em defesa de si mesma.
Mary Hellen, com gentileza, a interrompeu:
__ No quer ir ajudar tia Margheritte, Penny Sue?
Ela deve estar precisando. Com a chegada dos gmeos, acabamos nos atrasando. Logo as mes viro apanhar os filhos.
 Claro, Mary Hellen
Penny Sue assentiu e deixou Mary Hellen na sala de visitas com Malone.
Os bebs se encontravam em seus assentos, sobre o tapete, um de frente para o outro, agitando os bracinhos e as perninhas. A seu lado fora posto tudo o que possuam: uma sacola com as fraldas, duas mamadeiras, dois ursinhos de pelcia e dois chocalhos, que pareciam ter recebido como herana. Mary Hellen suspeitou que Tucker tentaria descobrir os pais dos bebs atravs dos chocalhos, mas ele tinha expressado suas dvidas.
As crianas eram quase cpias de carbono um do outro, com cabelos castanho-avermelhados e olhos azuis. Cada um usava um suter com um nome bordado: Steffie e Sammy. Quanto ao sobrenome, ningum poderia adivinhar.
 Um casal  murmurou Tucker, estudando-os.  Mary Hellen, suspeita de quem sejam?
 No, delegado.
Encarou-a com frieza. Tucker sabia quando mentiam para ele, embora no momento no visse motivo para mentiras.
 Consegue se lembrar de alguma razo particular que a me possa ter para t-los deixado com voc?
 Ningum sabe se de fato foi a me que os deixou. Penny Sue viu apenas uma mulher se afastando.
 Sabe de algum que deixaria os filhos para voc cuidar?
 Se eu soubesse os teria reconhecido. E no os comeo.  Olhou para os dois pequenos rostos redondos.
 O mistrio  to grande para mim quanto  para voc. Por isso o chamei.
Certo. Se Mary Hellen conhecesse as pessoas que escolheram deixar aquelas duas crianas adorveis com ela, teria feito qualquer coisa em seu poder para demov-los da idia antes de chamar o delegado.
Tucker Malone era um homem honesto e de bom corao, mas acreditava na justia e seguia as leis ao p da letra. No entanto, compaixo no estava entre as qualidades que Mary Hellen lhe atribuiria. E compaixo era o mais necessrio ali.
 E quanto quela doao annima que voc teria recebido quando inaugurou a creche? Aquela que a est ajudando a manter a casa funcionando?
Ela o fitou intrigada.
 Como soube dessa informao, delegado? Tucker afastou o chapu para trs com o dedo polegar.
 Como bem sabe, Mary Hellen, os segredos no duram muito por aqui. Mas pense nisso: seja quem for que tenha feito a doao, pode ter tido fortes razes para faz-la.
 Como assim?
 Algum pode ter sido generoso de caso pensado, apostando que voc ficaria com os bebs. Dinheiro para limpar a conscincia.
Mary Hellen engasgou, atnita.
 No, Malone. No posso acreditar nisso.
 Foi apenas algo que me ocorreu.  Tucker levantou um dos assentos.  Bem, verei o que posso descobrir.
 Pegou o chocalho do sof e colocou no bolso.  Outra coisa. Ns, l na delegacia, no estamos preparados para abrigar bebs. Com sua permisso, entrarei em contato com a assistncia social e pedirei que a declarem guardi temporria deles, pelo menos at que eu possa pensar em outra coisa. Afinal, voc tem licena para cuidar de menores.
Pega de surpresa, Mary Hellen no conseguiu responder. Ser responsvel por duas crianas durante vinte e quatro horas por dia era algo que jamais considerara, apesar de ter obtido um certificado de administradora de creches.
 Est querendo que eu fique com eles?
 No ser para sempre. Apenas por enquanto. Existe lugar melhor para os gmeos do que numa creche?
Mary Hellen teve de admitir, embora relutante, que o delegado Malone tinha razo. Para onde mais ele levaria os bebs?
 Muito bem, Malone. Tucker assentiu.
 Sou o delegado de Storkville e, como tal, procuro sempre fazer o melhor.  Puxou a aba do chapu para baixo e virou-se para a sada.
Um dos bebs comeou a choramingar.
 Bem, eu vou indo  Antes de sair, ainda disse:  Avisarei, caso descubra algo. Faa o mesmo, ok?
Mary Hellen parou para pegar Sammy, comeava a chorar. Segurando-o contra o ombro, deu batidinhas em suas costas.
 Pode contar com isso.
Mary Hellen comeou a considerar o prximo passo a dar, sabendo que no poderia evitar. Mesmo hesitando, seguiu em frente. No por haver alguma dvida quanto  competncia daquele a quem estava prestes a chamar, mas por causa das dvidas que tinha quanto a sua prpria reao, a sua habilidade para se conter estando cara a cara com ele. Com Guilherme Caldwell.
Mas no havia como fugir. Os bebs precisavam ser examinados por um pediatra competente. Storkville agora tinha um. Cinco meses atrs, aps ter sido o mdico local por cerca de trinta anos, o dr. Gregory Bowen se aposentara, com problemas de sade. Foi ento que, havia quatro meses, o dr. Guilherme Caldwell Jr., que recentemente retornara para sepultar o pai, assumira o lugar do dr. Bowen.
Demorou pouco para que Guilherme retomasse seu lugar dentro da comunidade que deixara s carreiras, anos atrs. Alguns dias depois, foi como se ele nunca tivesse partido.
Mary Hellen hesitava em cham-lo por temer que o mesmo acontecesse com o lugar que Guilherme certa vez ocupara em seu corao. Um cantinho secreto que jamais revelara a ningum. Sobretudo aps ter se casado com o melhor amigo dele.
Por fim, deu o telefonema, constatando que no existia outra escolha, tentando se convencer de que agora era uma mulher adulta, e que era hora de agir como tal. Pelo menos por fora.
Aps quatro meses evitando-o, Mary Hellen, de uma hora para outra, o convidou para ir a sua casa. E agora, ficava ali parada, em silncio, observando-o examinar os bebs.
Encontrava-se em um dos quartos de hspedes da casa que herdara de sua tia-av. A cama onde colocara Sammy e Steffie era antiga, de uma outra era, quando os dormitrios das damas eram mais femininos, e elas mantinham-se caladas, em vez de desnudar seus verdadeiros sentimentos.
Porm, talvez as coisas no tivessem mudando tanto assim, Mary Hellen concluiu,  espera dos prognsticos.
Ainda no tivera chance de redecorar aquele quarto. Houve muito o que fazer durante os preparativos para a inaugurao da creche. Mary Hellen desejou ter escolhido a sala de estar para o exame dos irmos, em vez do aposento de hspedes. Entretanto, com o cu cinzento e carregado de nuvens escuras, bem ali, do lado de fora da janela, tinha-se a impresso de haver fantasmas ameaadores circulando pela sala. No que algum deles fosse um fantasma de seu passado, no qual desejara ter vivido com Guilherme, porm nunca aconteceu.
Guilherme tirou o estetoscpio dos ouvidos e sorriu para os gmeos. Sammy pareceu ter correspondido, pelos olhinhos brilhantes.
Ele, ento, ergueu a vista, bem devagar, para Mary Hellen.
 Exceto pelos espirros e o nariz escorrendo de Steffie, eles esto muito bem. Seja quem for que os tenha deixado aqui cuidou bem deles.
 Certo. Muito embora os tenha abandonado para serem cuidados por estranhos.  Mary Hellen percebeu o amargor na prpria voz.
Movendo-se para o lado de Guilherme, procurou ocupar-se ajeitando as roupinhas de Sammy e, de propsito, evitando fit-lo.
Guilherme guardou o estetoscpio dentro da maleta. Foi uma verdadeira surpresa ter recebido o telefonema de Mary Hellen naquela tarde, e tambm o fato de ter ficado mais contente do que pretendia ao ouvi-la. Retornara a Storkville fazia quatro meses e a vira apenas a distncia, uma vez ou outra, caminhando pelas ruas da cidade.
Estivera fugindo dela, do mesmo como Mary Hellen fugia dele. Mas era inevitvel. Cedo ou tarde, eles se veriam frente a frente Afinal, Storkville no era assim to grande. Guilherme s no esperava que o encontro deles, aps tanto tempo, seria to dramtico.
Sentia-se aliviado por no ter sido chamado para examinar um filho dela e de Ethan. Espantou-se ao saber que eles no tiveram filhos. Eram casados fazia dois anos quando Ethan faleceu num acidente de trnsito.
Guilherme a fitou. Como Mary Hellen teria lidado com a dor da perda? Ser que ainda amava o marido morto?
Com algum esforo, conseguiu bloquear aqueles pensamentos. No havia por que ficar pensando naquilo. Tampouco para se julgar ser outra coisa alm do pediatra que ela chamado para examinar os bebs. Talvez, se Mary Hellen aceitasse, Guilherme continuasse sendo seu amigo. Presente ou ausente, ela sempre poderia contar com seu apoio. Como fora antes de ele deixar a cidade.
Aquele silncio constrangedor enlouquecia Mary Hellen, que agarrou-se  primeira idia que lhe ocorreu.
 Foi muita gentileza sua ter vindo, Guilherme.  Minha nossa, aquilo teria soado to afetado para ele como soara a ela? Contudo, o que poderia dizer ao homem que certa vez amou com todas as foras de seu corao e que jamais a quis? Que, para tir-la do caminho, jogou-a nos braos de seu melhor amigo? Ou foi apenas o que pareceu na ocasio?
Mary Hellen certa vez julgou que houvesse amizade entre eles, e esperou que pudessem se tornar mais do que isso. Porm, at mesmo isso acabou por perder. No entanto, aprendeu uma valiosa lio: jamais se arriscaria de novo a sofrer.
Encarou Guilherme.
 Sabe que eu teria ido a seu consultrio se pudesse  Ela esperava fazer isso ao ligar para marcar a consulta, porm fora ele mesmo quem atendera ao telefone, o que a fez tremer nas bases e agir feito uma colegial apaixonada.
 Teria sido complicado levar as duas crianas at l.  Guilherme fechou a valise.  E voc, pelo visto, tem muito o que fazer.
Guilherme sabia que devia ir embora, mas no conseguia dar o primeiro passo para fora do quarto. Existiam perguntas demais martelando em sua mente, que suplicavam por respostas.
Em vez de partir, olhou em torno, vendo mais do que o belo dormitrio onde se encontravam.
  um bonito aposento.
 Minha tia-av deixou a manso para mim como herana. Tem, como costumam dizer, infinitas possibilidades  disse ela, a vaidade evidente.
Aquela foi a primeira vez que Guilherme a viu sorrir desde que entrou naquela residncia. Aquilo o levou de volta ao passado e a anos de memrias que nunca se permitia lembrar.
 Por que uma creche, Mary Hellen?
Aquilo parecia to natural para ela que a questo a surpreendeu.
 Sempre gostei muito de crianas.
 Sim, eu tambm. Ela riu com suavidade.
 Deu para notar.  Com Steffie nos braos, ela moveu-se para pegar Sammy.  Vou coloc-los no bero.  Ento, ao ver o espanto dele, apressou-se em acrescentar:  So leves.
 Nem tanto. Permita que eu a ajude.  Largando a maleta, Guilherme tirou Sammy do colo dela.  No pode querer fazer tudo sozinha.
Mary Hellen procurou se convencer de que nada sentira, que seu estmago se apertara devido  fome, j que nada comera naquele dia alm de um dos cookies que tia Margheritte preparara.
 E por que no?  o que venho fazendo at agora.  Mary Hellen era forte e resistente. Engraado, ele no se lembrava dela assim to vigorosa. Com a maleta mdica em uma das mos e segurando Sammy contra o peito com a outra, Guilherme deixou o quarto. Mary Hellen o seguiu.
 Est se saindo muito bem, sabia? Ethan teria ficado orgulhoso de voc.




CAPTULO II


 O que achou, bonito? Eles esto bem?
Guilherme foi pego de surpresa ao descobrir Margheritte parada junto  porta do quarto.
Conhecendo-a como conhecia, porm, no devia ter se espantado.
Mary Hellen a deixara l embaixo para receber os pais, que, no final da tarde, chegavam para apanhar os filhos. Mas devia saber que a veria ali no momento que tivesse uma folga. A mulher o fitava, ansiosa, por sobre os culos, enquanto aguardava uma resposta.
Guilherme sorriu.
 Sim, esto timos, embora Steffie tenha se resfriado.
 No  de admirar, aps terem deixado os pobrezinhos l fora, no frio.  Sem esperar por convite, Margheritte pegou Sammy do colo de Guilherme, aconchegando-o contra o peito. Seu semblante irradiava calor e ternura ao fitar o rostinho do beb.
 Meu querido
Guilherme apiedava-se das duas criaturinhas to indefesas. Abandono de crianas era algo que se esperava acontecer apenas nas metrpoles, onde, sendo justo ou no, os cidados costumavam ser mais frios e desinteressados, at mesmo em se tratando dos prprios bebs.
Os mesmos sentimentos pareciam inconcebveis ali, naquele lugar conhecido por seu amor pelos pequenos. Intrigado, virou-se para Mary Hellen.
 Faz alguma idia de quem os deixou aqui? Mary Hellen meneou a cabea.
 No.
Ela teve a impresso de que ouviria aquela indagao muitas vezes nos prximos dias. Storkville no era a cidade mais excitante do mundo, e qualquer desvio das normas estabelecidas logo virava um espetculo, uma fonte de especulao, e at mesmo de entretenimento.
 Sabe, Guilherme  murmurou tia Margheritte, pensativa, ainda apreciando as feies de Sammy.  No sei se  devido  luminosidade, mas Sammy se parece um pouquinho com voc. H uma fotografia sua na sala de estar de sua me que lembra muito esses dois.
 Acha mesmo?  Guilherme inclinou-se sobre o ombro dela, cheio de curiosidade, e se ps a observar o beb adormecido.
Mary Hellen olhou para Steffie, e em seguida para Guilherme. No notou semelhana alguma entre os dois. Imaginao de Margheritte
 Todos os bebs so parecidos  afirmou, esperando colocar um ponto final no assunto.  Voc, Margheritte, sendo, por assim dizer, a bab oficial de Storkville, deveria saber disso.
Margheritte cerrou os lbios, observando Sammy. O menino espreguiou-se, e a semelhana desapareceu.
 Tem razo.  Margheritte encarou Guilherme.  se fossem seus filhos, tenho certeza de que teria feito a coisa certa, casando-se com a me deles. No  mesmo?
De repente, Guilherme comeou a se dar conta de que Margheritte estava arquitetando algo. Como se a chegada dos gmeos j no fosse um mistrio, ela complicava tudo ainda mais lanando aquela suspeita no ar. Ele j podia at imaginar os rumores: "O dr. Caldwell, de Storkville, est providenciando os prprios pacientes". Precisava cortar o mal pela raiz, e logo.
 No tenho nada a ver com eles, Margheritte. E no me olhe desse jeito.  Guilherme virou-se para Mary Hellen. Ser que tambm suspeitava dele?  Sabe muito bem que eu estava bem longe de Storkville quando eles foram concebidos.
 O que o faz crer que sejam bebs daqui?  Margheritte desafiou-o.  Mary Hellen acha que foram deixados por algum forasteiro.
Guilherme fitou Mary Hellen, esperando por uma explicao. A ltima coisa de que necessitava era t-la a suspeitar de que ele era o pai dos pequenos.
Sob seu olhar penetrante, Mary Hellen olhou, meio constrangida, para o beb que tinha nos braos.
 Este  um local  pequeno, e todos se conhecem, pelo menos de vista. Nos ltimos dez ou onze meses, ningum que conhecemos deu  luz gmeos. No  o tipo de coisa que se pode esconder.
Houve uma poca em que sua vida parecia ser um livro aberto, pensou Mary Hellen. Isso no perodo em que esteve casada com Ethan. O engraado era que foi a ltima a saber. Todos, menos Mary Hellen, estavam a par das "escapadas" de seu marido. Ou talvez tivesse escolhido manter-se alheia.
 Talvez sejam de algum que deixou Storkville  Guilherme sugeriu.
Margheritte fez um movimento com os lbios, parecendo estar se divertindo a valer.
 O que nos leva de volta a voc.
 Esse parece ser meu destino.  Guilherme desceu a manga da camisa que arregaara e abotoou o punho.  Bem, preciso ir.  Voltou-se para Mary Hellen.  Passarei amanh aps o expediente para examinar Steffie.
Como seu irmo, Steffie dormia, tranqila. Um tanto insegura, Mary Hellen se dirigiu a Guilherme.
 Ela no precisar tomar nenhum medicamento?
Guilherme conhecia aquele jeito. Era o pnico das mames de primeira viagem diante da primeira doena do beb. Interessante tamanha preocupao. Mas no devia se surpreender. Sempre soube o quanto Mary Hellen era sensvel.
Procurou acalm-la:
 No ser preciso. Esses resfriadinhos se curam por si mesmos. Apenas mantenha-a aquecida e bem alimentada. Se tiver alguma dvida  s me chamar. Estarei em casa. Ficarei por l at descobrir o que fazer com ela.
Mary Hellen notou que Guilherme pronunciara a palavra "casa" de um modo frio, e tentou adivinhar se era o que ele sentia em relao  residncia dos pais ou se foi apenas imaginao de sua parte.
Margheritte resmungou algo, e ambos se voltaram para ela.
 Tenho uma sugesto quanto ao que voc poder fazer com a casa, Guilherme.  Observou Mary Hellen antes de continuar, sua implicao muito clara:  Poder reform-la, casar-se com uma boa moa e ter uma poro de crianas.
Bonito, gentil e atraente, parecidssimo com o falecido pai, Guilherme sempre fora assediado por pessoas que tentavam cas-lo com as sobrinhas, filhas e conhecidas.
 J tenho uma poro de bebs para cuidar. - Esboou um sorriso doce.  Eles invadem meu consultrio aos bandos, todos os dias, durante oito horas.
Afagou o beb que Margheritte segurava.
 Algumas vezes, mais do que isso.  Margheritte arqueou as sobrancelhas e o fitou de modo penetrante.
 Estou me referindo a bebs seus, doutor. Seus. Guilherme nada comentou, embora o sorriso em seus lbios tivesse ficado bem menos animado, um pouco mais forado. No haveria bebs seus, porque jamais existiria uma esposa. No iria cometer o erro de seguir apenas o que lhe ditava o corao, ignorando a sensatez, a realidade. Diferente de seu pai, para Guilherme o casamento no era um instituio que ele profanaria, fazendo caoada, no levando-o a srio.
E acima de tudo, jamais magoaria algum que o amasse. Ou algum que ele amasse.
Olhou para Mary Hellen e decidiu afastar aqueles pensamentos. No devia permitir que flussem naquele rumo. A melhor maneira de lidar com situaes como aquela era evit-las, no explor-las.
 Talvez algum dia, Margheritte  Essa era a resposta mais segura que poderia dar.
Confessar que pretendia permanecer sozinho pelo resto da vida faria com que a amiga insistisse. Seria o equivalente a agitar um pano vermelho na frente de um tourobravo.
Margheritte atribua-se o mrito de ter iniciado o movimento que fizera com que a Cmara Municipal rebatizasse o lugar para Storkville: a cidade da cegonha. Tudo comeou com a exploso de nascimentos que aconteceu nove meses, aps um colapso na rede eltrica que causou um apago sem precedentes, deixando a regio inteira s escuras.
Mesmo antes disso, Margheritte sempre agira como se fosse um dever seu unir todos os cidados solitrios de Storkville. Tentara a mesma manobra com Guilherme uma vez ou duas, sem sucesso.
Guilherme esperava que aps seu auto-imposto exlio Margheritte pudesse ter desistido, mas devia ter adivinhado. Os leopardos no mudavam a cor de suas manchas. Margheritte, a bem da verdade, parecia mais determinada a cada ano que passava.
 Algum dia ser tarde demais, doutor. A hora de pensar no futuro  agora  insistiu.
Guilherme terminou de abotoar o segundo punho da camisa.
 Tentarei me recordar disso.
 Deixe que eu cuido dos bebs  Com a mesma facilidade com que pegara Sammy, Margheritte agora apanhava Steffie do colo de Mary Hellen. O olhar movendo-se dela para Guilherme.  Acompanhe o doutor at a porta, meu bem.
Ele j ia em direo  escada.
 Pode deixar, Margheritte. Conheo bem o caminho. Mary Hellen passou o brao pelo dele antes de notar o que fazia. O gesto lhe era natural desde a poca em que no precisava avaliar cada movimento que fazia, reexaminar cada frase que pronunciava, temendo dar alguma pista sobre seus verdadeiros sentimentos.
Por um instante, pensou em evitar o contato, mas aquilo chamaria mais ateno ainda. Ento, procurou fazer o melhor, fingindo que eles continuavam naqueles tempos, quando ainda havia tanto futuro diante deles, tantas promessas de porvir para os dois, antes de ela ter se desiludido, tanto com Guilherme quanto com Ethan.
Mary Hellen o impeliu em direo ao corredor.
 Vamos sair daqui enquanto podemos.
 Tem razo.  Fascinado, Guilherme observou a prpria respirao agitar os cabelos dela. Seu peito se apertou.
Era bom tornar a sentir Mary Hellen assim to perto, ter seu brao enlaado ao dela ao descerem os degraus.
Bom demais, alertou a si mesmo. Esperava que os anos idos o tivessem feito perder o interesse por ela, embora no a afeio. Mas tudo o que aqueles mil e noventa e cinco dias, duas semanas e cinco horas fizeram foi torn-la ainda mais bela, mais atraente, mais mulher. Seu adorvel perfume pairava no ambiente. A mesma fragrncia, uma que o excitava e trazia fragmentos de recordaes de volta a sua memria, fazendo-o lembrar de quanto na verdade sentira a falta dela, mesmo tendo permanecido dentro de sua alma como uma aurora boreal, sempre fora de seu alcance.
Tudo o que Guilherme precisava para acabar com aquela saudade era uma viagem de retorno, e houve ocasio em que esteve prestes a ceder  tentao. Porm, no cedera.
Em primeiro lugar, no se fora de Storkville para, depois, voltar rastejando, no importa o quanto quisesse fazer isso. Optara pela partida ciente de que era para seu prprio bem. E para o dela. E para o de Ethan, se parasse um pouco para pensar Embora, para ser sincero, o amigo nunca tivesse tido um papel muito importante naquele caso. No fundo, jamais considerou Ethan como sendo o melhor homem para Mary Hellen, no mais do que ele mesmo.
Ao p da escadaria, Guilherme virou-se para se despedir. Mas no lhe ocorreu o que dizer. Queria apenas olhar para ela.
Permaneceram no hall de entrada, a nica luz, a do abajur da sala, mal iluminava seus corpos, lanando as sombras de suas silhuetas na parede, parecendo mais soltas do que eram.
Mary Hellen estava mais linda do que nunca, concluiu Guilherme. Durante os anos em que estiveram afastados, a garota que ele amara e mantinha trancada em sua alma desabrochara, transformando-se em uma bela mulher. Mas havia uma tal tristeza nela que nem seus olhos, nem seus lbios conseguia esconder.
Uma mgoa infinita o inundou. Perguntou-se como conseguira se manter afastado. Como pudera permanecer longe dela, quando deveria ter retornado.
Devia-lhe um pedido de desculpas, se no uma explicao. Antes que pudesse se conter, pegou as mos dela entre as suas.
 Quero que voc me perdoe por eu no ter vindo para o funeral de Ethan.
Mary Hellen deu de ombros, fingindo indiferena. Esperara por ele naquele dia trgico, e chamou-se de fraca por quer-lo a seu lado para confort-la.
 No precisa se desculpar De qualquer modo, no havia nada que voc pudesse fazer.
"Alm de me abraar e confortar, me ouvir desabafar, como costumava fazer. Sabia que tudo o que eu queria de Ethan, em nosso primeiro aniversrio de casamento, era o divrcio? Que eu costumava rezar para que voc aparecesse, para me salvar do erro que tinha cometido? O erro que voc me encorajou a cometer? No, no creio que teria entendido. Tinha sua vida para cuidar, aquela que escolheu para viver, sem mim", pensou ela.
Guilherme apertou os dedos dela, encaixando-os nos seus. Experimentava a estranha sensao de que falhara com Mary Hellen, de que a deixara a ver navios quando ela mais precisava de seu apoio.
 O que est havendo, Mary Hellen?
 Como assim?
 Essa enorme melancolia em seu olhar, que me faz
 Est vendo coisas, Guilherme. Deve ser por causa da luz  Disfarou, sorrindo com suavidade. Afastou-se, quebrando o contato. Ento, gesticulou indicando a manso.  Parece mais sombria agora do que durante o dia. Tia Jane nunca contou com iluminao suficiente. E algo que pretendo corrigir quando for possvel reform-la, mais para a frente.
Suas palavras o fizeram pegar o talo de cheques no bolso do palet. Dinheiro, pelo menos, nunca fora um problema para Guilherme. Se no podia dar a Mary Hellen o que desejava, pelo menos poderia auxili-la.
 De quanto precisar para a reforma?
 Oh, eu no sei, talvez  Mary Hellen se calou ao compreender o que Guilherme pretendia. Segurou o brao dele e o olhou fundo dentro dos olhos.  Desculpe, mas no quero fazer isso.
Ele a fitou, intrigado. Como Mary Hellen continuava a segur-lo, desistiu de pegar o talo.
 Fazer o qu?
 Pegar dinheiro com amigos.
Mary Hellen sempre fora uma cabea-dura, pensou ele, e continuava sendo.
 Seria apenas um emprstimo, que voc pagaria quando pudesse.
Mas ela ainda assim balanou a cabea.
 Daria no mesmo  No havia como aceitar sua caridade.  Consegui chegar at aqui por mim mesma, e pretendo continuar do mesmo modo.
Mary Hellen fez uma pausa, questionando-se, procurando no semblante dele por uma resposta.
 Algum me enviou uma doao annima h algumas semanas, e com essa quantia pude antecipar a inaugurao da creche. Teria sido voc o doador annimo?
Aquela era a primeira vez que ele ouvia falar a respeito.
 No, no fui eu.  Embora desejasse ter sido. Guilherme sabia de gente com mais posses do que Mary Hellen que teriam recebido bem um emprstimo sem que fosse necessrio pagar juros bancrios.
Baixou  mo. S ento Mary Hellen afastou a dela.
Guilherme achou graa. No pde disfarar a admirao que sentia por ela.
 No me lembro de voc ter sido assim to rgida.
 As pessoas mudam.
Como era mesmo que se dizia? Por mais que as coisas mudassem, continuavam sendo as mesmas.
 No voc, Mary Hellen, que jamais mudar. E suave e doce como o mel e continuar sendo assim.
Outrora ela teria acreditado nele, em sua sinceridade. Naquele momento, dignou-se apenas a dar de ombros. Aps olhar pela janela, voltou-se para Guilherme.
 Bem, no vou prend-lo mais. Parece que teremos uma tempestade, e no quero que se molhe. O riacho ainda costuma transbordar nas horas mais imprprias.
Aquilo seria nervosismo? Mas por que motivo ficaria nervosa? No podia ser por sua causa. Guilherme jamais a tirara do prumo.
 E voc acha que esta  uma hora imprpria para ele transbordar?
 No banque o esperto.  Piscou, brincalhona.  Embora sempre tenha sido o mais esperto de todos Ethan vivia dizendo isso.
Guilherme a estudou, por um longo momento.
 O mais esperto, ?! - Do jeito como as coisas terminaram, aquela era a ltima coisa que poderia se afirmar sobre ele.  Nada sei a esse respeito.
O vento comeou a soprar forte. Guilherme sabia que agora precisava ir embora.
 A coisa est ficando feia.  melhor eu ir para casa. Foi muito bom tornar a v-la.
Quando Mary Hellen sorriu, Guilherme pensou em arriscar tudo para acarici-la e experimentar o gosto da boca macia.
Mary Hellen era diferente de qualquer outra mulher. O tempo a deixou mais bela, sedutora, intrigante. Sua prpria reao quando a tocou o surpreendeu. No esperava sentir uma emoo to forte.
Porm, no podia correr o risco de ofend-la.
 Tambm gostei de rev-lo.
E um impulso irresistvel provocou as palavras que Guilherme no pde reprimir, no conseguiu evitar:
 Mary Hellen, se voc no tiver nada mais interessante para fazer no fim da semana, talvez ns
A autopreservao a fez reagir.
 Lamento, mas tenho milhes de tarefas a cumprir.  Ele considerou aquilo como sendo uma desforra, um em merecido desagravo. Era melhor assim, tentou se convencer.
 Lgico. Passarei amanh para ver Steffie. Voc  Guilherme foi pegar a maleta que deixara ao lado e parou. No sabia se foi a iluminao no hall ou o fato de tornar a v-la aps todos aqueles anos s pensando nela. Sua mo encontrou o caminho para sua cabeleira loira e sedosa, que moldava lindamente seu rosto, um segundo antes de roar os lbios nos dela.
Afirmou para si mesmo que aquilo era amizade apenas, mas era a mais deslavada mentira. Beijou-a porque precisava beij-la, porque queria beij-la e porque no teve foras suficientes para afastar-se do momento, e da tentao. Tudo o que queria era saborear aquela boca maravilhosa. Apenas uma vez.
Mary Hellen prendeu o flego um segundo antes de sentir a deliciosa presso dos lbios sensuais se apossando dos seus.
Ela o beijara uma vez, na festa de seu vigsimo primeiro aniversrio. Ambos estavam um tanto embriagados, e portanto um pouco menos inibidos. Guilherme a beijara no jardim, enquanto faziam um pedido diante de um vaga-lume, fingindo ser ele uma estrela cadente cada na terra.
O poder daquele beijo permanecera gravado em seu esprito, desde ento, at aquele exato momento. Contudo, fora superado por esse outro.
A cabea de Mary Hellen comeou a rodar. Era como se tivesse consumido toda uma garrafa de vinho em segundos.
O carinho dele era gentil, tanto como os primeiros flocos de neve do inverno. E passional. Havia muita paixo nele.
Todavia, como Guilherme podia ser apaixonado aps ter sado de sua vida sem ao menos dizer por qu? Quando nem sequer se dera ao trabalho de procur-la aps ter retornado  cidade?
No fazia sentido.
Mas nada fazia, enquanto os raios cortavam o cu e a tudo iluminava pareciam incendiar seu corpo inteiro, enquanto o silncio e a quietude em torno deles intensificavam as batidas de seu corao.
Durante dez anos Mary Hellen esperou tornar a beij-lo. Certas coisas o tempo salientava, com seu poder nebuloso, e lanava mo de um truque travesso, fazendo-nos acreditar que algo que vivemos, na verdade, era mais grandioso do que fora.
Tudo aquilo ocorria a Mary Hellen, naquele instante, ao enlaar o pescoo de Guilherme e se entregar de corpo e alma a seu beijo.
Ela suspirou. Agora no restava mais nenhuma dvida em seu ntimo.
A espera valera a pena.




CAPTULO III


No foi suficiente. Tratou-se apenas de uma nica gota d'gua para um sedento.
O beijo apenas o fez querer mais. Ansiar por mais. Guilherme lutou para no fraquejar, mais do que j fraquejara. Mas era como afundar na areia movedia: quanto mais lutava para se manter  superfcie, mais afundava.
Bolas, ele era um homem, no um garoto! E como tal, no devia se render to fcil ao perigo.
Mary Hellen significava exatamente isso. Perigo com "p" maisculo. Estar perto dela, mesmo sendo por pouco tempo, fazia-o se esquecer das promessas que fizera a si mesmo, de seus nobres ideais, e, alm de tudo, reduzia-o a um monte de desejos e necessidades, sem o menor controle.
Entretanto, de algum modo, embora desejasse abra-la com fora, aprofundar o beijo ainda mais, Guilherme foi capaz de se afastar do centro do redemoinho que por um triz no o sugou para o fundo.
Mais abalado do que imaginava ser possvel, tomou flego e aguardou um instante, antes de confiar em si mesmo para fit-la nos olhos.
 Desculpe-me, Mary Hellen, eu no devia ter feito isso.  Baixou as mos quando notou, tarde demais, que continuava a enla-la.
Mary Hellen sentiu como se algo tivesse desmoronado dentro dela.
O que dizer a algum que acabava de se confessar arrependido de t-la beijado? O adequado era concordar, lgico. Se no por outro motivo, pelo menos para salvaguardar o orgulho.
E assim ela o fez. Recuperando-se, Mary Hellen levantou a cabea com a graa de uma princesa diante do inimigo.
 No, voc no devia.
Sendo desse modo, por qu, mesmo ao concordar, suas palavras pareciam punhais afiados, atirados contra Guilherme? Por que sua expresso fazia-o sentir-se to culpado, como se tivesse acabado de cometer um gesto terrvel?
Talvez ele tivesse cometido. Portanto, Guilherme tentou se corrigir como pde.
 Bem, eu creio que
 O qu, Guilherme?  perguntou ela, com incrvel frieza.
Seu ntimo, no entanto, exigia: "Diga para mim, explique por que est sendo to cruel. D-me um motivo para que eu pare de alimentar esperana quanto a ns dois".
Tentar explicar complicaria ainda mais as coisas, Guilherme concluiu. Ele nunca tivera o dom da lbia. Aquele fora o forte de Ethan, que sabia sempre o que dizer a algum, e o momento perfeito. Guilherme tinha apenas a verdade, que nem sempre agradava.
Pegando a maleta, fez a nica coisa que podia fazer: bateu em retirada.
 Preciso ir, Mary Hellen.
Sem dizer mais nada, Guilherme saiu, fechando a porta atrs de si.
L fora, praguejou contra o erro que cometera. Mary Hellen ficou onde estava imvel, em direto contraste com o tumulto acontecendo dentro dela. Mas, afinal, o que foi que houve ali?
Ela teria enlouquecido? Guilherme acabava de beij-la, com uma paixo avassaladora, como se no quisesse mais nada da vida. De repente, afastara-se apressado como se no pretendesse tornar a v-la.
Confusa, Mary Hellen desistiu de tentar entender.
 Isso que ouvi foi a porta?
Pega de surpresa, Mary Hellen, ergueu o rosto e deparou com Margheritte no alto da escadaria. Comeou a descer os degraus, olhando em torno, notando que apenas elas duas se encontravam na residncia. Suspirou, sem dvida desapontada.
 Eu cheguei a crer que Guilherme acabaria ficando para o desjejum.
Havia brinquedos para guardar e a sala para arrumar. Ningum faria isso por ela. Pegando um pequeno caminho, Mary Hellen encarou para Margheritte com ar de incredulidade.
 Desjejum? Voc quer dizer jantar, no ? Margheritte seguiu seu exemplo, e se ps a auxiliar Mary Hellen.
 Estou com mais de cinqenta anos, mais de meio sculo de idade, Mary Hellen, e sei o que estou dizendo. Se falei desjejum,  porque  desjejum.  Com outro suspiro, ainda mais desgostoso, ps as mos na cintura.  Mas talvez ainda seja cedo.
Guardado o caminhozinho no cesto de brinquedos, Mary Hellen a fitou com suspeita.
 Cedo para qu?
O sorriso no rosto Margheritte mostrava uma malcia incontestvel.
 Voc sabe.  Piscou, em vez de responder.  Sempre achei que vocs dois formavam um belo casal.
Mary Hellen franziu as sobrancelhas ao atirar um boneco dentro do cesto com mais fora do que o necessrio
 Deve ser a nica a achar isso, Margheritte.
 Oh, quanto a isso eu no sei Mas no diga que no sentiu o calor no olhar dele sempre que se voltava para voc.
Mary Hellen no precisava daquilo naquele momento.
 Est imaginando coisas, Margheritte.  A empregada deu de ombros.
 O maior cego  aquele que no quer ver. Continua sendo teimosa, menina. Sempre foi, desde criana, a rainha das cabeas-duras.
Mary Hellen parou com o que fazia e olhou em direo  porta, e para a escada alm dela.
 Falando em criana
 Coloquei os irmos no quarto das crianas. Esto dormindo. To confortveis que parecem estar em seu prprio lar, naquele enorme bero antigo  Margheritte assegurou, sorrindo.
Em seus planos de redecorao, Mary Hellen, movida pelo sentimento, resolvera deixar aquele aposento igual a como sempre fora durante setenta e cinco anos. Era o dormitrio onde os filhos de sua tia-av dormiam, quando pequenos. Todavia, nenhum alcanara a idade adulta.
Mary Hellen guardou o ltimo brinquedo e fechou a caixa lentamente.
 Vou subir para dar uma olhada neles.  Nutria uma grande afeio por Margheritte, mas, naquele instante, preferia ficar sozinha.
 Deve olhar  a si mesma, minha querida  Margheritte disse, com toda a suavidade, quando Mary Hellen passou por ela.  Voc ainda  uma garotinha.
Mary Hellen deu de ombros. Passara-se um longo tempo desde a ltima vez em que se sentira desse jeito. A perda dos pais, das iluses, e depois da tia, a fez amadurecer.
 Vou fazer trinta e um anos, Margheritte.
 Para algum como eu, no passa de um beb, amorzinho.
Mary Hellen estava prestes a protestar, mas se conteve. Estava sendo maldosa, afirmou para si mesma. Margheritte s estava tentando ser til. Assim, colocou a mo nos ombros da mulher.
 Margheritte, sei que suas intenes so as melhores. Porm, vamos deixar como est, certo?
 Para mim, tudo bem. Se no faz questo de perder um homem to fino, gentil e bonito como Guilherme para outra qualquer, o azar  seu.
O comentrio de Margheritte alertou Mary Hellen.
 Do que est falando?
 Ah, est com cime?
 No, eu
Droga, mas o que era aquilo? Estaria comeando a se interessar por ele? Outra vez? Tanto que mal podia refrear a curiosidade?
Ser que Guilherme tinha algum? Era por isso que no o vira desde que retornara? Em uma cidade pequena como aquela, os mexericos eram o passatempo principal da maioria. Mas quase nunca lhe sobrava tempo para ouvi-los.
Margheritte deu batidinhas confortadoras em seu brao.
 Relaxe, no h ningum. Pelo menos que eu saiba. Mas oua o que estou dizendo. Um rapaz como Guilherme no fica muito tempo sozinho.
 No estou interessada em romances, Margheritte. Tenho as mos cheias de trabalho.  Mary Hellen indicou a sala.  Mais do que imaginei.
 Sobretudo agora, com os gmeos. Posso ficar para passar a noite, se quiser. Voc vai precisar de ajuda.
Mary Hellen no gostava de abusar da boa vontade das pessoas. Mais do que isso, no conseguiria ver-se como sendo auto-suficiente se contasse com Margheritte para tudo.
 Obrigada, mas pode ir para casa, minha amiga. Darei conta do recado.
Margheritte deu uma risadinha.
 Ningum consegue cuidar de dois bebs durante a noite, aliment-los pela manh e ainda estar com tudo preparado para a chegada das crianas. Nem mesmo a mulher maravilha. Pare de ser turrona, Mary Hellen, e permita que algum lhe d uma mo, pelo menos uma vez.
A afeio de Mary Hellen por Margheritte levou a melhor.
 Tudo bem, fique, se preferir.
Satisfeita, Margheritte passou o brao pelo dela.
 Ainda tem muito pela frente a superar, garota. Mas voc conseguir
Mary Hellen no fazia idia de que tratar de dois bebs fosse to trabalhoso. Para comear, eles no dormiam ao mesmo tempo. Mal Sammy adormecia, Steffie acordava, o narizinho entupido, cortando o corao de Mary Hellen.
No entanto, com os gmeos ou no, ela duvidava de que seria capaz de conciliar o sono aquela noite. Toda a vez que conseguia baixar as plpebras via-se revivendo o beijo que experimentara. No conseguia lembrar-se de um simples beijo, de um nico momento de amor com Ethan, mas o de Guilherme a marcara na alma. S de record-lo, seu corpo parecia se incendiar. Ento, todo o sono era banido de seu sistema.
Pela manh, Mary Hellen se sentia como se tivesse sido atropelada por um caminho e sem a menor condio de enfrentar um esquadro de crianas e seus pais.
Tomou um banho frio e desceu para beber uma xcara de caf. Isso ajudou. Um pouco.
Pelo menos uma vez, os pequenos perturbaram menos que seus pais. A notcia, como Mary Hellen suspeitava, espalhara-se mais rpido do que fogo na palha seca. Todos queriam saber sobre os bebs deixados  porta da creche. Variaes das mesmas perguntas foram feitas s dzias, at que sua cabea parecesse prestes a explodir. Aquilo, ela sabia, era resultado da noite insone.
Suspirou, desolada, ao fechar a porta da frente aps o ltimo pai ter ido embora. Isso, perto do meio-dia.
Recostou-se  porta fechada e precisou de foras para no se deixar escorregar at o cho e ali permanecer. O que necessitava, ela decidiu, era de mais cafena. Mais estmulo lquido e menos emocional.
Um instante depois, descobriu que no estava s.
Abriu os olhos.
Margheritte, com um dos gmeos nos braos e trazendo pela mo Angie, uma garotinha de trs anos, se encontrava parada perto dali, a observ-la. Mary Hellen endireitou os ombros.
 Voc est um trapo, minha querida. Conseguiu repousar pelo menos uma meia hora?
 Claro que sim  mentiu.
No havia por que discutir os motivos de sua insnia. Com sorte, devia ser apenas a ameaa de um resfriado. Com o retorno da normalidade, mais tarde poria a cabea no travesseiro e dormiria o sono dos justos.
 Devia ter me acordado, Mary Hellen. Dormi feito uma pedra, mas, se tivesse me chamado, eu teria vindo.
A ltima coisa que Mary Hellen desejava era que Margheritte descobrisse sobre Guilherme, sobre seu amor por ele.
 Agradeo, minha querida. Voc est sendo maravilhosa, trabalhando tantas horas comigo sem receber. No posso continuar abusando de sua boa vontade dessa maneira.
O rosto de Margheritte se suavizou com um terno sorriso.
 Voc s estaria abusando se eu estivesse sendo forada a fazer isso. E no  verdade. Adoro ficar aqui, lidar com esses pequerruchos, cuidar deles. Para mim  mais compensador do que ficar sentada em casa fazendo croch para os parentes que no do valor, e quando os recebem enfiam no fundo de um ba qualquer que nunca abriro.
Mary Hellen, bem rpido, estava descobrindo o quanto era intil argumentar com Margheritte a respeito do que quer que fosse.  Bem, colocando dessa forma
Margheritte a fitou, alegre.
  desse jeito que devo colocar. Algum tocou a campainha.
Mary Hellen ficou tensa de repente. Fez um rpido inventrio mental de todas as crianas sob seu teto. J haviam chegado todas, menos Heather Riley, cuja me telefonara para dizer que a garotinha no viria  creche naquela semana.
Aquilo queria dizer que a pessoa que chegara no era, de modo algum, me ou pai de algum.
Decerto algum jornalista, Mary Hellen concluiu, querendo saber da histria dos gmeos.
 Eu atendo  ofereceu-se Margheritte. Mary Hellen pegou-a pelo brao.
 Deixe comigo.
Uma sensao de grande alvio a fez relaxar quando se viu diante de Tucker, e no de algum reprter.
 Boa tarde, Tucker! Alguma notcia da me dos bebs? O delegado afastou o chapu para trs da cabea com o polegar da mo direita, como era seu costume.
 No, mas encontrei esta dama misteriosa. Ou melhor, Penny Sue a encontrou.
Quando Malone saiu do caminho, Mary Hellen notou que no estava sozinho. De imediato a reconheceu. O restante das palavras do delegado no foram necessrias:
 Ela alega ser sua prima, Mary Hellen.
Atnita e ao mesmo tempo feliz, Mary Hellen ficou muda. Abriu os braos para a moa diante de si e a envolveu. Seu ventre avantajado ficou no caminho.
Soltando-a, Mary Hellen deu um passo atrs e conduziu sua prima grvida para dentro.
 Gwenyth, meu Deus, deixe-me olhar para voc!  Mary Hellen estudou sua barriga arredondada.  Quando foi que isso aconteceu?
Em um gesto instintivo, Gwenyth acariciou o abdome.
 H sete meses.
Mary Hellen espiou l fora, esperando ver o marido dela por perto, mas no havia ningum. Espantada, voltou-se para Gwenyth.
 Mas onde est
 Onde ele deve estar. Bem longe daqui.
O tom de Gwenyth alertou Mary Hellen de que estava pisando em campo minado.
 H algo que eu possa fazer por voc? Gwenyth sorriu.
 Sim. Preciso do endereo de algo que eu possa alugar. O mais barato que encontrar.
Mary Hellen respirou fundo.
 Ento, vocs romperam? Gwenyth assentiu.
 Rompemos.  No deixou espao para argumentos.
Mary Hellen entendia o que a prima devia estar sentindo, vendo seu casamento acabar bem diante de seus olhos. Decerto, no por sua culpa. Para disfarar o constrangimento, resolveu mudar de assunto:
 Por que no veio antes?  Gwenyth esboou um sorriso tristonho.
 Creio que estava reunindo coragem para encar-la, Mary Hellen. No  fcil voltar, deixar as pessoas saberem que as coisas vo mal.
Mary Hellen enlaou-a pelos ombros.
 Notou se havia algum por perto quando chegou? Algum deixou dois bebs em minha soleira.
Gwenyth meneou a cabea.
 O delegado j havia me perguntado isso. No, no notei. Talvez estivesse preocupada demais com meus problemas para notar algo alm de mim.
Atrs dela, Margheritte pigarreou, chamando a ateno de Mary Hellen.
 Desculpe-me, querida, no a apresentei. Esta  minha prima Gwenyth Parker. Gwenyth, esta  Margheritte Anderson. E este  o delegado Tucker Malone.
O delegado assentiu para Gwenyth.
 Ns j nos conhecemos.
 Entendo  Mary Hellen piscou para ele antes de retornar  prima.  Voc me surpreendeu com sua visita, estando grvida e tudo o mais,
 E divorciada  Gwenyth acrescentou, gentil.  Lembrei-me de tudo o que voc disse sobre Storkville, e pensei em comear aqui uma vida nova para mim e para o beb.
 Sendo assim, pode apostar que veio ao lugar certo.  Margheritte se adiantou e tomou a mo de Gwenyth entre as suas.
 Obrigada, sra. Anderson,  muito bom saber disso.  Margheritte dispensou a formalidade com um gesto de mo.
 Todos aqui me chamam de tia Margheritte. Acho que sei de um lugar para voc morar. H uma casa, que penso ser ideal, e fica perto daqui.  Margheritte olhou para o delegado.  Sabe a qual me refiro, Tucker. O chal de Ben Crowe. Parece que ele quer vender, mas pode estar interessado em alugar, nunca se sabe. Est desocupada.
 Sim, conheo o imvel.
Aps tudo por que Gwenyth havia passado, aquilo estava sendo fcil demais. Tentando conter a satisfao, encarou Margheritte e em seguida Mary Hellen.
 Quando poderei v-la?
 Estamos bastantes ocupadas no momento, meu anjinho. Entretanto, pode ser que Tucker no se importe de lev-la at l.
Gwenyth detestava incomodar os outros, mas estava ansiosa para encontrar um lugar s seu para se instalar. Desse modo, virou-se esperanosa para o delegado.
 Se no for muito incmodo No quero causar nenhum transtorno.
Margheritte acabou com qualquer possibilidade de Tucker dizer no.
 Transtorno?  Entregando o beb para Mary Hellen, pegou a mo de Gwenyth.  O bom e velho Tucker Malone no sabe qual  o significado desse termo. Oua o que estou dizendo, mezinha. Esta  a cidade mais descomplicada que j existiu, e aposto que tambm a mais amigvel. No  verdade, Tucker?
Ele riu.
 Claro, Margheritte.
O quadro no era assim to celestial quanto Margheritte pintara, mas o delegado no viu razo para contradiz-la. Margheritte adorava estar certa, sempre. Portanto, Malone no teve escolha a no ser atender ao apelo silencioso que viu nos olhos da recm-chegada.
Ento, dirigiu-se a ela:
 Se deseja mesmo conhecer o lugar, eu a levarei at l.
 Agradeo muito, delegado. Obrigada a todos vocs pela gentileza.  Gwenyth hesitou, olhando para Mary Hellen.  Voc se importaria se eu ficasse aqui at encontrar um lugar?
 Imagine! Eu insisto nisso.
 Mary Hellen, eu sabia que podia contar com voc Mary Hellen devolveu Steffie a Margheritte e tornou a abraar a prima.
 Faz parte da famlia, minha querida, e sabe que sempre ser bem recebida em meu lar, no importa o que acontea.
Mary Hellen sabia que Gwenyth estava ansiosa para conhecer a residncia, mas tinha a impresso de que naquele momento prima precisava mais de apoio moral do que um teto sobre a cabea. Alm disso, se por algum motivo Gwenyth no conseguisse alugar a casa, poderia se instalar na creche. Sem dvida, o imvel era grande o bastante.
 Tucker, pode aguardar alguns minutos? Enquanto isso, poderemos tomar uma xcara de ch e conversar.
 Bem, no sou muito de conversa, Margheritte. Mas se voc me oferecer caf em vez de ch
 Combinado!
Mary Hellen convidou Gwenyth para acompanh-la  cozinha, deixando Margheritte com Tucker. Ouviu-a falando com ele sobre bebs e tentou no rir.
Meia hora depois, Tucker e Gwenyth estavam prontos para sair. A campainha tocou no exato instante em que o delegado estendia a mo para a maaneta. Ele notou que Mary Hellen empalideceu ao ouvi-la, apesar de at ento ter estado to animada.
 O que foi? Algum tem vindo aqui perturb-la?  Malone quis saber.
 No. Estou apenas antecipando o pior.  Dessa vez tinha de ser algum do jornal.
 As mulheres tm mesmo muita imaginao.  disse Tucker com uma risadinha, ao abrir a porta da frente.
O som de sua risada registrou-se no exato instante em que Guilherme abria a boca para se desculpar.
 Mary Hellen, resolvi passar por aqui na hora do almoo em vez de Ah!
Teria interrompido alguma coisa? Mary Hellen estaria vendo algum? Jamais lhe ocorreu que haveria um homem partilhando de sua alegria, de seus segredos e talvez de seu amor.
Ocorria agora.
Levou um minuto para Guilherme se recobrar.  Perdo, Mary Hellen. Eu no pretendia interromper.
Tucker o cumprimentou com um gesto de cabea.
 Voc no interrompeu nada, Caldwell. Ns estvamos de sada.  Com a mo pousada nas costas de Gwenyth, Tucker parou  soleira para olhar para Mary Hellen.  Avisarei se descobrir algo a respeito dos gmeos. Ela assentiu.
 Obrigada, Malone. E Gwenyth, depois que conhecer a casa, precisaremos conversar.
 Gostaria muito.  A prima sorriu.
 Eu tambm  Mary Hellen assegurou, um instante antes de Tucker sair com a moa e fechar a porta atrs deles.
 Bem, vou ver as crianas.  Margheritte entregou Steffie a Mary Hellen.  Fique com ela. E aproveite a presena to amvel do doutor.
Aps ter lanado um sorriso triunfante na direo de Guilherme, Margheritte desapareceu no corredor, deixando-os no hall de entrada, com o beb entre eles.
Constrangida, Mary Hellen pigarreou.
 No repare, Guilherme. Margheritte  assim mesmo. Mas venha comigo.  Dessa vez, ela o conduziu  sala ao lado.
No local havia vrios beros prontos para receber as crianas que Mary Hellen antecipava que, eventualmente, seriam colocadas sob seus cuidados, enquanto os pais trabalhavam. Naquele momento, os gmeos eram os mais novos de todos.
Mary Hellen sentiu ser sua responsabilidade permanecer junto enquanto Guilherme examinava Steffie. Estava inquieta, como algum que no sabia direito o que fazer de si mesma.
Guilherme retirou o estetoscpio e guardou-o na maleta, ao terminar o exame.
 Steffie continua resfriadinha, mas no h febre. Como passou a noite?
Mary Hellen tentou ser exata:
 Mais ou menos bem, mas no chorou menos do que Sammy.
Aquilo soou positivo para Guilherme. O que era mais do que poderia afirmar da prpria Mary Hellen. Notava um nervosismo nela que no existia na vspera. E ela parecia um pouco abalada.
Guilherme riu, sem poder evitar de comentar:
 Vai me desculpar, Mary Hellen, mas Steffie me parece bem melhor do que voc.
Aquilo no era algo que ela precisava ouvir. Afastando-o de seu caminho, aproximou-se do bero e se ps a trocar a fralda da garotinha.
 Voc, como sempre, com seus comentrios estimulantes
Agora Guilherme fora longe demais e ferira seus sentimentos. No fora inteno dele. Por que no conseguia manter uma conversao com Mary Hellen? Outrora, eles costumavam conversar horas a fio.
 No pretendia insult-la. Fiz apenas uma observao, como mdico
Mary Hellen lanou-lhe um olhar por sobre o ombro.
 Expandindo sua rea de conhecimentos?
Guilherme no tinha certeza se ela estava sendo sarcstica. Outrora ele saberia. Anos atrs, Mary Hellen jamais lanaria mo do sarcasmo, mas muita coisa acontecera desde ento. Deu de ombros.
 Em uma cidade pequena como esta, as coisas tendem a se sobrepor. Um mdico aqui no pode ser rgido em seus limites como profissional.
Mary Hellen desejou no ter dito o que disse a seguir. No entanto, no pde se refrear:
 E quanto ao homem em voc? A ele se aplicam as mesmas regras?
Guilherme a estudou por um segundo, pensativo.
 Se est dizendo isso devido ao que houve ontem J me desculpei.
Sua resposta a deixou ainda mais abalada. Mary Hellen podia sentir a fria, por tanto tempo reprimida, comeando a irromper em seu ntimo. Ajeitou Steffie no bero e virou-se para encarar Guilherme.
 Sim,  sobre ontem. Estava me questionando por que se sentiu na obrigao de me pedir perdo. Voc, na certa, tomou atitudes na vida pelas quais devia se desculpar, mas essa no foi uma delas.
Era impossvel ignorar a censura.
 Srio? E de que pecados devo me desculpar? Mary Hellen foi at a porta e a fechou. No queria que Margheritte ou qualquer outra pessoa ouvisse a conversa.
 Por ter desaparecido do jeito que fez. Bancou o cupido, atirando-me nos braos de Ethan, e depois, quando me casei com ele, nem ao menos ficou para a recepo.
 Mas no faltei  cerimnia.
Ele fora o padrinho, apesar de ter protestado. No tivera alternativa a no ser aceitar.
 No entanto, desapareceu em seguida, sem nem ao menos se despedir de mim.
Guilherme permanecera na festa at fazerem o tradicional brinde. Em seguida, quando Mary Hellen o procurou, soube que ele deixara o local quase s carreiras. Guilherme tomara a deciso de deixar a cidade assim que Ethan contou que se casaria com Mary Hellen. Embora tivesse contribudo para aquela unio, afastando-se quando Ethan confessara seus sentimentos por ela, Guilherme soube que no poderia ficar e testemunhar o amor dos dois florescer e dar frutos. No era to forte, no importava o quanto desejasse ser.
 Eu tinha uma viagem marcada e precisava pegar aquele avio, Mary Hellen. Meu destino estava tomando um rumo diferente.
Sim, claro. Um rumo que o prprio Guilherme traou, indo para bem longe de Storkville. Muito distante dos amigos e de todos aqueles que se importavam com ele. E a lguas dela.
Todavia, se tomou uma atitude to drstica, por que ento decidiu voltar?
 E agora aquele rumo diferente completou cento e oitenta graus?
Guilherme, quela altura, disse o bvio, a nica coisa capaz de traz-lo de volta  cidade que prometera deixar para trs e nunca mais retornar:
 Meu pai faleceu.
Mary Hellen estava ciente de que ele retornara devido  morte do pai. Foi a primeira coisa que imaginou quando recebeu a notcia do falecimento. E foi por isso que, quando Guilherme no fez nenhum esforo para v-la aps ter voltado, a mgoa se tornou quase que intolervel.
 J faz quatro meses.
 O que deseja que eu faa, Mary Hellen?
 Que me d uma explicao. Que me diga a verdade. Inquieta, comeou a caminhar de um lado para o outro no aposento.  No sei Talvez eu tenha enlouquecido
Mesmo admitindo aquilo, ela se sentia cada vez mais brava com o modo como Guilherme a abandonou. Fossem quais fossem seus motivos, no eram bons o bastante para ele chegar a reneg-la.
As pupilas de Mary Hellen flamejavam quando parou e fitou-o.
 Eu queria poder contar com um amigo, Guilherme. Enquanto tudo desmoronava em torno de mim, queria poder contar com uma mo amiga.
Guilherme desejou estender os braos e confort-la. Aninh-la junto ao peito e dizer que sentia muito. Mas tudo o que poderia fazer com segurana era explicar-lhe suas razes, e nada mais alm disso.
Com um suspiro, enfiou as mos nos bolsos da cala.
 Acreditei estar fazendo o melhor, ao me afastar. Mary Hellen o encarou, estupefata. Guilherme de fato
acreditava naquilo que dizia?
 Jamais ouvi nada mais estpido. Eu necessitava de algum com quem conversar, um ombro para me apoiar. Decerto no devia, mas precisava Droga!  Exasperou-se.  Nem mesmo sei por que estou falando isso. Devo estar mesmo exausta por no ter dormido a noite inteira. E no posso desanimar. Sou responsvel pelo bem-estar de todos aqueles que esto ali, naquela sala.
Ela fez um gesto com a mo em direo ao outro ambiente, onde se encontravam as crianas.
 Para no mencionar esses bebs deixados  minha porta. Algumas vezes, apenas algumas, tenho vontade que quebrar pratos, atirar objetos contra as paredes
Guilherme sabia que ela no iria gostar se ele comentasse que ficava linda quando se zangava, como naquele momento. Para no correr o risco de levar com um vaso na cabea, fez fora para no sorrir.
 E por que no o faz?
 Porque nesta casa, tudo que  quebrvel  muito antigo, valioso ou precioso.
 Que tal ento me esmurrar?
Enquanto ela o fitava, boquiaberta, Guilherme virou-se e ofereceu-lhe livre acesso ao seu antebrao.
 V em frente, capriche. O casaco  grosso e amortecer o golpe. No machucar seus dedos.  Guilherme, era bvio, achava que ela no se atreveria.
Bem, Mary Hellen estava furiosa o suficiente para se atrever, sim. Cerrando os punhos, socou o brao dele o mais forte que pde.
 Meus dedos no importam
A ltima vez que Guilherme experimentara a fora de seu soco, eles tinham oito anos. Mary Hellen ficara bem mais vigorosa desde aquela poca, ele pde constatar, divertindo-se, grato por ter encontrado tempo para fazer musculao. Caso contrrio, suspeitava que de fato ela o machucaria, apesar do agasalho.
 Mas a mim importam.  Preparando-se, esperou que Mary Hellen tornasse a acert-lo.
Ela o socou mais trs vezes, at que sua energia por fim esgotou-se, e a iria abandonou seu olhar. Quando afastou-se, Guilherme pde relaxar o msculo.
 Sente-se melhor agora?
 Sim, obrigada.  Mary Hellen exercitou os dedos, observando-os. Ento, o fitou e comeou a rir.  Talvez voc deva acrescentar saco de pancadas a sua rea de conhecimento.
Guilherme movimentou os ombros. No dia seguinte, na certa acordaria dolorido. Mas tornou a ver o sorriso dela, e isso fez valer a pena.
  apenas um servio que presto aos amigos muito especiais.
Mary Hellen sentiu-se um pouco sem graa por ter gritado com ele.
 Quer dizer que ainda somos amigos? Encararam-se.
 Alguma vez duvidou disso?
Mary Hellen esboou seu melhor sorriso para o homem que outrora fora seu querido confidente, e no para o estranho que retornara  cidade fazia pouco.
 Estava comeando a duvidar. Voc sumiu de nossas vidas sem nem ao menos avisar para onde ia.
Guilherme pensou um pouco naquilo que poderia dizer sem revelar toda a realidade.
 No quis me intrometer em seus assuntos. Mary Hellen achava uma insensatez ele raciocinar daquele modo.
 Como poderia se intrometer, Guilherme? Ns crescemos juntos, eu, voc e Ethan. Nossos caminhos estiveram interligados desde a infncia Houve uma poca em que eu podia terminar seus pensamentos, e voc os meus.
Guilherme lembrava-se bem disso. E foram detalhes como aqueles que o fizeram crer que, com ele, as coisas poderiam ser diferentes. Mas evidncias ao contrrio estavam ali, espalhadas por todos os lugares para onde olhava.
 Talvez temesse despertar cime em Ethan. Ele era meu melhor amigo, e eu no queria mago-lo. Alm do mais, tudo entre ns teria de mudar depois que vocs se casassem.
Guilherme se baseara nos prprios pais, naquilo que sua me contara sobre seu pai, o quanto ele costumava ser gentil e atencioso com ela, at se casarem. E sobre o grande nmero de mulheres que se viram diante de um quase estranho aps os votos que trocaram diante do sacerdote.
 Sim, com certeza.
Ethan mudara da gua para o vinho depois do casamento. No logo no incio. Naqueles primeiros meses de novidade, ele fora um marido adorvel. Ou foi o que pareceu a Mary Hellen.
Porm, pouco a pouco, a novidade perdera o colorido, e tambm mudaram as atenes de Ethan para com sua mulher.
Todavia, o momento no era para ficar pensando em coisas desagradveis. Mary Hellen no queria que Guilherme notasse sua mgoa, no pretendia arruinar a imagem que ele fazia daquele que fora seu melhor amigo.
 Bem  decidiu mudar o rumo da conversa.  Preciso me preocupar com Steffie?
 No. Continue agindo o que vem fazendo. Porm, deve mant-la afastada do irmo at que melhore do resfriado. Embora, a meu ver, seja tarde para isso.
Mary Hellen no pde resistir a pegar Steffie no colo e abra-la por um instante.
Guilherme a observou. Mary Hellen parecia to natural com o beb nos braos Algum igual a ela devia viver cercada de uma poro de crianas. Seus prprios filhos. Sentiu uma pontada de angstia diante da idia.
 Em seu lugar, eu no me preocuparia. Os dois bebs so muitssimo saudveis.
Mary Hellen olhou para o rostinho de Steffie.
 O que nos faz querer adivinhar por que algum os abandonaria diante da primeira porta por onde passou. Se fossem seus filhos, jamais se separaria deles, muito menos lhes daria as costas. Que tipo de me tomaria tal atitude?
 Quem os deixou no o fez em uma porta qualquer. Garanto que essa pessoa a escolheu para cri-los.  Ele a seguiu at o hall.
Ser? Tenho a impresso de que esse algum nem sequer imaginava com quem os estava deixando. Esperavam que quem os encontrasse se apiedasse deles e resolvesse assumi-los.
 Um estranho? Mary Hellen, Storkville  a cidade da cegonha, lembra-se?
Mary Hellen suspirou e resolveu chamar Penny Sue, Sue se aproximou sem demora.
 Querida, pode vir pegar Steffie, por favor? E pea a Margheritte para ajud-la com Sammy. E hora de eles comerem.
A garota jogou os cabelos para trs, de um modo altivo, antes de pegar Steffie.
Margheritte chegou em seguida, parando perto de Penny Sue.
 Pode deixar o almoo deles por minha conta, Mary Hellen. Enquanto isso, fique cuidando de nosso bom doutor.  Em seguida, virou-se para Penny Sue.  Vamos, criana. Venha aprender como se d de comer aos bebs.
 Margheritte  uma boa pessoa  disse Mary Hellen, aps as duas voluntrias terem sado.  No sei o que faria sem sua ajuda. Mas gostaria que ela tivesse escolhido um nome mais adequado para dar  cidade. "Storkville" faz com que pareamos ter sado de um livro de histrias.
A noo fez Guilherme achar graa.
 Algumas vezes voc parece, mesmo.
 Srio? E de que tipo de livro de histrias acha que sa?  De repente, Mary Hellen se deu conta de que estava flertando com ele, e que era muito bom.  Algo a ver com princesas e drages?
 Na mosca! E voc  a princesa, lgico.
E, para ser franco, Guilherme sempre a vira como uma princesa inatingvel. Portanto, no devia alimentar a esperana de possu-la.
Mary Hellen sorriu. Era muito bom conversar com Guilherme, como naquele instante, em tom de brincadeira, como outrora costumavam fazer.
 Obrigada.  to bom poder brincar um pouco! Em minha vida, tudo  srio demais, rgido demais. Estava precisando disso.  Ento, um qu de travessura curvou seus lbios sensuais.  Se tivesse dito que me via como o drago no sei do que eu seria capaz.
Quando ela o fitava daquele modo, com um brilho to intenso em seus lindos olhos, Guilherme pensava apenas em tornar a beij-la.
 No h perigo disso. Nessa historinha, voc no  a pessoa que vejo como drago.
De repente, ele soava to srio que foi como se os dois no tivessem recuperado a antiga camaradagem.
 E quem ?
Guilherme resolveu no falar diretamente. Fez um gesto com a mo.
 No importa mais. O drago se foi.  "Ficou apenas seu legado", Guilherme acrescentou de si para consigo.
Ele estava cheio de mistrios, constatou Mary Hellen, mas havia algo em seu semblante que fez com que ela desistisse de tentar saber a quem Guilherme se referia.
Disse a si mesma que era bastante eles terem comeado a derrubar as barreiras, que ela conseguira amenizar o clima entre eles e que devagar retornavam ao equilbrio de antes.
Mary Hellen fitou a porta da sala da frente. Margheritte e Penny Sue pareciam ter tudo sob controle. Agradeceu aos cus por isso.
 Voc comentou que estava na hora de seu almoo, Guilherme. Posso lhe oferecer algo para comer?
Ele verificou as horas no relgio. Comeava a ficar tarde, e tinha uma consulta marcada para as duas horas.
 No, obrigado. Tenho de voltar ao consultrio.
 E como vo os negcios? Bem, espero.
 Esta  a cidade dos bebs, afinal de contas Guilherme estava fugindo dela. No dia anterior, Mary Hellen teria permitido que ele se fosse. Mas agora que vislumbrara como as coisas costumavam ser entre os dois, encheu-se de esperanas de que tudo voltasse a ser como antes. Portanto, procurou ganhar tempo:
 Ser que no conseguirei tent-lo com algo? Aquele era o problema. Ela conseguiria, com enorme facilidade, e Guilherme no tinha certeza se resistiria quela tentao, no importando o quanto tentasse.
 De fato, no posso ficar. Talvez uma outra ocasio Guilherme desistira de sua hora de almoo para vir ver Steffie. O mnimo que Mary Hellen poderia fazer era aliment-lo.
 Nem um sanduche para levar? Se esperar um minutinho, lhe preparo um misto-quente.
Mary Hellen o viu vacilar. Guilherme no devia ter comido nada naquele dia. Lembrou-se de como costumava pular refeies quando se concentrava em algo.
Guilherme riu.
 Igual queles que preparava quando ns brincvamos na casa da rvore?
 Aquela no era uma casa, era um clube  Mary Hellen o corrigiu, as pupilas cintilando. Passou o brao pelo dele, dirigindo-se  cozinha.  Voc e Ethan eram bastante especficos a esse respeito. No queriam que nenhum de seus amigos os visse fazendo algo um pouco menos masculino. A virilidade deve ser algo de grande importncia para um garoto de dez anos.
Aquilo o levou de volta ao passado. Se fechasse os olhos, conseguiria ver o clube. Eles mesmos o construram, os trs, fazendo uso das tbuas que sobraram de uma residncia de hspedes que o pai de Ethan erguera na propriedade.
Fora difcil levar as tbuas e tudo de que precisavam para cima da rvore. No fim, dos trs, era Mary Hellen quem se saa melhor. E no perdia a oportunidade de se vangloriar por ser uma garota magrinha contra dois garotes.
A recordao o encheu de prazer.
 Voc subia na rvore mais rpido do que qualquer um de ns
Algo se aqueceu dentro de Mary Hellen. Ela gostou de v-lo sorrir.
 A casa da rvore ainda est l, sabia? Guilherme no sabia. Esperava que ainda existisse,
assim como adoraria que ainda houvesse todas as coisas boas de sua infncia, que havia muito tempo se acabaram.
 Est brincando! Mary Hellen meneou a cabea.
 Juro.
A casa da rvore fora construda nas terras do pai de Ethan, onde Mary Hellen e ele viveram aps os pas dele se mudarem para Denver.
 Ethan pretendia derrub-la. Dizia que estava no caminho.  Certa vez, Mary Hellen chegou em casa e viu o marido com o jardineiro, acertando o preo para p-la abaixo.
Destruir aquela rvore seria como se o ltimo baluarte de sua infncia estivesse sendo atacado.
 Ethan planejava construir uma piscina enorme, mas no permiti que acabasse com a rvore.
 Portanto, voc acabou vencendo
Mary Hellen deu de ombros e soltou-se dele.
 No, no venci. Os planos que Ethan fez para a construo da piscina foram abandonados. Ele sofreu aquele acidente na mesma semana, e morreu.
 Lamento no ter estado aqui
Guilherme dissera a mesma coisa na vspera, mas, tendo motivos ou no, devia ter comparecido ao funeral. Porm, teve medo daquilo que lhe causaria a viso de Mary Hellen, chorosa e se lamentando sobre o tmulo de Ethan.
 Para ser sincera, se voc tivesse vindo, no poderia ter feito nada alm de me ajudar. Providenciei tudo sozinha para o funeral, e fiz o melhor que pude.  Era como se aquilo tivesse acontecido a outra pessoa.  A vida precisa continuar, no  mesmo?
 Sim
 De qualquer modo, me deixe preparar aquele sanduche, Guilherme. Por falar nisso, quanto cobra por uma consulta em domiclio? Ontem me esqueci de perguntar. Mary Hellen abriu o armrio e pegou o po de frma. Em seguida, apanhou os frios na geladeira.
 Recordo-me de minha tia-av dizendo que costumava pagar trs dlares pelos honorrios do mdico, quando vinha v-la em casa, mas isso foi antes de o atendimento mdico domiciliar ter sado de moda.
Guilherme observava suas mos trabalhando. Era mais seguro do que fit-la nos olhos.
 Um sanduche bem preparado servir para pagar por meus servios, contanto que voc capriche no recheio.
Rindo, Mary Hellen cortou mais algumas fatias de queijo.
 Aqui est. Um sanduche caprichado no recheio!
Tucker retornou com Gwenyth pouco aps Guilherme ter ido embora.
Gwenyth conseguiu alugar a casa, mas a residncia no estaria pronta para ser usada antes de duas semanas. Por isso, ficou acertado que se hospedaria com Mary Hellen at se mudar.
J que Mary Hellen recusou qualquer pagamento, Gwenyth insistiu em auxili-la com na creche. Com Rebecca Fielding, que costumava trabalhar como voluntria, Mary Hellen tinha agora um bom nmero de garotas ajudando-a.
Tucker a surpreendeu ao retornar pela terceira vez, no exato momento em que os pais comearem a chegar para apanhar os filhos. Ao conduzir o delegado  sala que transformara em escritrio, Mary Hellen designou Margheritte para a tarefa de entregar as crianas, sabendo que no havia o que ela apreciasse mais do que aproveitar a oportunidade de falar com os pais.
 Achei que gostaria de saber que voc acertou quando afirmou que a me dos gmeos devia ser algum de fora daqui, Mary Hellen. Andei investigando e descobri que o pai de Penny Sue se lembra de ter visto uma mulher dirigindo uma velha picape nos arredores de Storkville, rumo oeste. Ele no conseguiu ver toda a placa do veculo, apenas uma parte dela. No corresponde a nenhum daqui.
 E de fora do Estado?  Se fosse, pensou ela, seria mais difcil de ser localizada.
 No.  de Nebraska. Vou ligar para o departamento de trnsito de Omaha. Tenho um amigo que trabalha l. Verei se ele descobre alguma coisa.
 Com apenas uma parte da placa? Ser possvel?
 Voc ficaria surpresa se soubesse o que eles conseguem fazer.  Malone se dirigiu ao hall.  Pode ser que demore um pouco, mas no tem outro jeito. E s o que temos. No estamos fazendo muito progresso com o chocalho. Ah!  Quase esquecera. Do bolso da jaqueta, tirou um envelope e o estendeu a Mary Hellen.  Enquanto isso, obtive uma ordem do juiz, tornando tudo oficial. Os gmeos ficaro sob sua custdia at resolvermos este caso.
Mary Hellen aceitou o envelope e segurou-o por um momento antes de abrir.
 Espero que ningum se arrependa disso.  Malone se aproximou da sada e ps a mo na maaneta.
 D a si mesma um pouco de crdito, Mary Hellen. Todos confiam em voc, sem restries.
 Sempre desejei ser me, e tudo isso servir para mostrar se estou apta para a tarefa.
 Quanto a isso, no existe a menor sombra de dvida em minha mente.  E o delegado se foi.



CAPTULO V


Mary Hellen no saberia dizer o que a levou a fazer aquilo, mas de repente sentiu uma vontade irresistvel de visitar a velha casa da rvore, na propriedade de seu falecido marido.
Parada ao p do carvalho centenrio, sob o luar, diante da estrutura de madeira aninhada em seu tronco, foi assaltada por uma onda de nostalgia e sentimentalismo.
No fazia idia de por que sentia as lgrimas ardendo em seus olhos. Que tolice chorar
Piscou com fora para afastar o pranto. Quem sabe estivesse desenvolvendo algum tipo de alergia, ou ento pegara o resfriado de Steffie?
Talvez o que a levara at ali fosse o fato de ter tornado a ver Guilherme, ou ento a necessidade de relembrar um tempo, quando a vida era cheia de promessas de futuro, quando no havia responsabilidade, nem mgoas. Mas, fosse o que fosse, no pde evitar. Precisou voltar ali e rever aquele pedao de sua infncia.
Aps o expediente na creche ter se encerrado e Penny Sue ter ido para casa, Mary Hellen pediu a Margheritte para ficar com os gmeos por mais meia hora, o suficiente para que viesse at ali e desse uma olhada no lugar. No queria deixar Gwenyth sozinha em sua primeira noite ali.
Margheritte havia tirado um suter para Mary Hellen do armrio e colocado em sua mo. Parecia feliz e ao mesmo tempo surpresa vendo-a sair um pouco. Disse-lhe que no voltasse correndo. No havia pressa.
Mary Hellen, Ethan e Guilherme tinham construdo a casinha na rvore localizada no meio do quintal dos fundos da residncia dos pais de Ethan. Era distante o bastante da casa, permitindo que os trs fingissem estar a ss no mundo, embora perto o bastante dos adultos para que ficassem de olho neles, e se certificarem de que tudo estava em ordem.
Pelo menos os pais de Ethan faziam isso, assim como os dela, da propriedade vizinha. No entanto, os de Guilherme, pelo que lembrava, nunca vieram ver o que tinham construdo. Nem uma s vez vieram procur-lo ou tentaram saber de seu paradeiro.
Pensando nisso agora, Mary Hellen recordou que os Caldwell jamais deram a menor indicao de que Guilherme precisava seguir algumas normas de conduta. Era como se ele no tivesse ningum e fosse dono do prprio nariz. Ela e Ethan tinham hora de se recolher, mas no Guilherme, que podia ficar fora pelo tempo que queria. Ningum parecia dar a mnima.
Mary Hellen supunha ser por isso que ele lhe parecia to sombrio, to atraente. Era a prpria imagem do jovem melanclico e rebelde. Porm, de olhar repleto de ternura.
Ethan invejava a liberdade do amigo, mas no Mary Hellen. No fundo do corao, embora jamais tivesse admitido isso, se lamentava por ele. Sentia que faltava algo para Guilherme, no podendo contar com os pais para recorrer. Devia ser terrvel no poder confiar que estariam l para proteg-lo, caso casse da rvore, e para abra-lo, caso se ferisse. Mary Hellen sentia que havia uma grande distncia entre Guilherme e seus pais, e isso a entristecia.
Entretanto, Guilherme agia como se aquilo no o afetasse, como se a liberdade que Ethan invejava nele fosse a coisa mais preciosa da face da terra.
Alguns o consideravam selvagem, naquela poca. Mary Hellen pensava nele como sendo uma pessoa excitante.
Porm, na certa, ningum que tivesse conhecido Guilherme Caldwell Jr. esperaria que ele, ao crescer, se tornaria um mdico. Menos ainda pediatra. Os pediatras precisavam ter afinidade com as crianas, e a ningum ocorreria que Guilherme pudesse nutrir tais sentimentos.
A maioria dos cidados locais, Mary Hellen sups, julgava que aquele adolescente se tornaria um adulto rico, mimado e intil, como muitos foram antes dele.
Sorriu. Ela no pensava assim, mesmo na ocasio. Sabia que a pessoa que existia sob aquela fachada de indiferena era algum muito diferente. E era com essa pessoa que Mary Hellen passava horas conversando. A mesma que acreditava que se tornaria seu melhor amigo. E na poca ele fora.
Claro que dissera s pessoas que era Ethan, porque, lgico, era o que esperavam que se dissesse do homem com quem iria se casar. Mas nem mesmo quando partilhavam das intimidades da cama, Ethan esteve to prximo dela, de sua alma, como Guilherme.
Foi por isso que quando Guilherme deixou a cidade, sem mais nem menos, Mary Hellen se sentiu como se uma parte dela tivesse sido arrancada. Uma poro irrecupervel que nunca mais seria capaz de substituir.
Aquela sua perda se intensificou quando Ethan comeou a chegar tarde, passou a inventar desculpas para faltar a ocasies especiais e se esquecer de datas importantes, como o segundo aniversrio de casamento. Tinham reservas para o jantar em um restaurante que ele mesmo sugerira. No fim, Mary Hellen acabara jantando sozinha.
Ethan parecera ter ficado muito arrependido, enchendo a residncia de flores e trazendo-lhe uma jia valiosa, um belo pingente de ouro e brilhantes que Mary Hellen nunca usou. Tais presentes nada representavam, porque o sentimento no era verdadeiro. O Ethan que julgara amar no existia. E o verdadeiro Ethan jamais mudaria. Aps algum tempo, Mary Hellen se sentia  deriva, trada pelos muitos ideais aos quais se agarrara outrora.
Suspirou. No estava ali para pensar em tais coisas, viera para tentar, por um momento, rememorar um pouco de uma poca muito feliz que tivera, na qual amava tudo e todos, e nutria tantas esperanas.
Queria reviver aquilo, nem que fosse por um momento. Testou as ripas de madeira que de forma to vivida lembrava de fixar ao tronco, usando pregos e um martelo, junto com os amiguinhos. Ento, resolveu subir.
A casa parecia menor do que lembrava, mas a subida pareceu-lhe mais ngreme. Uma das ripas rangeu, ameaadora, mas se manteve firme no lugar, assim como o restante delas.
Com todo o cuidado e abaixada, Mary Hellen entrou no clube da rvore, que no era mais do que uma caixa de madeira com uma porta e duas janelas. Achou graa. Se algum passasse por ali e a visse, julgaria que tinha enlouquecido.
Entretanto, Mary Hellen estava faminta por voltar um pouco queles tempos. Talvez, como tudo o mais, retornar quela remota poro de sua existncia seria desapontador. Todos dizem que no se pode voltar atrs na vida. Mary Hellen tentou adivinhar se naquilo tambm se incluam as casas de rvore.
Havia sujeira e pedaos de madeira no minsculo interior, deixados ali por mais de dezessete anos de tempestades que aoitaram a regio desde a ltima vez em que ali estivera. Ao procurar por espao para se sentar, no piso, uma aranha correu para se esconder em sua teia.
 No tenha medo, garota. No irei me mudar para c. Estou apenas de visita.
Mary Hellen, ento, olhou em torno, sem pressa. De fato, a casinha era bem menor do que imaginava. Mas estavam com catorze anos na ltima vez em os trs estiveram ali, prestes a entrar para o segundo grau, quando um mundo todo novo acenava para eles. O clube, portanto, lhes pareceu muito infantil. Um retalho do que se fora. Mas naquele instante era adorvel, embora um pouco apertada.
Mary Hellen lembrou-se de que Ethan quisera dar  casa um funeral viking. Uma ltima homenagem antes de entrarem para o segundo grau. Fora Guilherme quem apontara o perigo naquela brincadeira espalhafatosa, evitando a fogueira.
Mary Hellen sempre se perguntara se ele fora contra a idia maluca de Ethan devido a seu lado prtico ou porque, assim como Mary Hellen, era contra destruir algo que, por tanto tempo, fora parte integrante de seus dias. Para Mary Hellen, casa da rvore simbolizava um vnculo forjado entre eles. Mas supunha que jamais saberia o que levou Guilherme a rebelar-se contra a idia de Ethan.
Embora um pouco relutante, Ethan por fim concordou em mant-la no lugar. Mas sem deixar de lamentar: a fogueira seria um belo espetculo, visvel em toda Storkville. Claro que antes de os bombeiros chegarem para acabar com ele.
Daquela vez, Ethan fora o imprudente, o irresponsvel, enquanto que Guilherme se mostrara a encarnao da sensatez. Mary Hellen deveria ter prestado mais ateno quilo.
As ripas tornaram a ranger sob ela, embora no tivesse se mexido. Mary Hellen no pesava muito mais do que quando tinha catorze anos, mas o desgaste causado pelos anos e pelas intempries era grande. Indagou-se se no estaria se arriscando ficando ali. E se tudo despencasse, com ela dentro? Agora, decerto, no podia se dar ao luxo de se machucar.
"Proprietria de creche da cidade sobe em casa de rvore e cai. O piso de madeira apodrecido no suportou seu peso e desabou. Fique conosco, no mesmo canal de notcias", diriam os noticirios.
Meneando a cabea, divertida, decidiu que ficaria apenas um minuto mais e desceria. De qualquer modo, no podia demorar. Margheritte precisava ir embora. No seria justo faz-la pernoitar de novo, no importava o quanto ela protestasse ou dissesse que gostava de cuidar dos gmeos.
Os pequenos eram sua responsabilidade, no de Margheritte, ou de Gwenyth.
O luar infiltrava-se pela janela que dava de frente para o quintal. Vendo-o agora, se tentasse com empenho, poderia at mesmo ter um relance da residncia de Guilherme. Localizada um pouco distante dali, na colina sinuosa, a propriedade dos Caldwell parecia olhar para baixo, como um senhor feudal, observando as cercanias, as casas dos camponeses que fizeram sua fortuna.
Quando Mary Hellen era bem mais jovem, em seu ntimo via Guilherme como sendo um prncipe, um que algum dia chegaria galopando em seu cavalo branco para resgat-la. Do que, ela no sabia. Apenas o fato de ele ter chegado teria sido suficiente para que ganhasse seu corao.
Engraado Naquele mesmo dia, Guilherme comentara algo sobre ela ser uma princesa. Talvez, afinal, continuassem um pouquinho sintonizados um com o outro.
Mary Hellen deixou escapar um suspiro. Era hora d evoltar para a creche, antes que Margheritte comeasse a achar que ela a abandonara.
De joelhos, alcanou a porta, evitando qualquer movimento mais rpido, temendo fazer com que tudo despencasse.
Num segundo, arregalou os olhos, ao dar com a pessoa bloqueando a passagem.
"Guilherme!"
Sem que notasse, levou a mo ao peito. O pulso batia, em disparada.
 O que est fazendo aqui, Guilherme?
Ele parecia to atnito quanto ela ao v-la ali. Encontrar Mary Hellen naquele lugar era a possibilidade mais remota que lhe ocorreria.
Guilherme ouviu dizer que Mary Hellen pusera para alugar a casa em que ela e Ethan viveram, mas que os inquilinos estavam fora, de frias. Mary Hellen deveria estar em seu prprio lar naquele momento, no ali.
Um enorme prazer espalhou-se dentro de Guilherme, que sorriu diante da pergunta que lhe fora feita.
 Aquele sanduche delicioso que voc me ofereceu despertou uma grande nostalgia em mim. Posso entrar? Esqueci a senha.
Mary Hellen recuou um pouco para lhe dar passagem.
 Ah, a senha! "Um por todos, todos por um".
A senha fora idia dela, aps ter lido Os Trs Mosqueteiros. Pareceu-lhe romntico, vistoso e bastante apropriado, embora nada tivesse comentado, na poca. No queria que Ethan e Guilherme caoassem dela. Sobretudo Guilherme.
  verdade Um por todos e todos por um.  O cho se mostrou sujo e spero sob suas mos, enquanto ele entrava.  No devia ter esquecido:
Por que no, tendo passado tantos anos sem se lembrar dela? A censura estava na ponta da lngua de Mary Hellen, mas preferiu deixar passar. Para que remexer no que estava quieto?
Com os rostos a centmetros um do outro, Guilherme precisou lutar contra a tentao. Observou-a prender o lbio inferior entre os dentes ao inspecionar a rvore, meio temerosa.
 Ser que isto aqui agenta nosso peso?
 Lgico que sim. Quando a construmos pretendamos que durasse para sempre.
 Sim, foi essa nossa inteno. Entretanto, na poca ramos trs magricelas.
Guilherme correu o olhar por ela, rpido, dando o melhor de si para parecer objetivo e profissional. Se conseguisse alcanar seu intento, poderia se considerar melhor ator do que se julgava ser.
 Bem, vendo-a agora, noto que nesses anos todos voc no ganhou muito peso, e no creio que agora eu pese muito mais do que eu e Ethan pesvamos naquela poca. Nosso clube agentar, pelo menos durante uma breve visita.
Guilherme sentou-se no centro, cruzando as pernas diante de si. Atenta a qualquer rudo revelador, Mary Hellen acomodou-se, de frente para ele. Disse a si mesma que estava tendo dificuldade em respirar por causa da poeira, no devido ao fato de estar acomodada ali, ao luar, bem perto do homem que amara por mais de metade de sua existncia.
Olhando em torno, Guilherme balanou a cabea, maravilhando-se.
 O que  que ns fizemos aqui dentro durante todos aqueles anos, hein?
 Muitas coisas!  Mary Hellen se fingiu de ofendida por ele ter se esquecido de algo to precioso.  Costumamos vir para c para conversar, ler revistinhas, fazer planos, pensar no porvir Recordo-me que achvamos que o futuro jamais chegaria. Voc no?
 Sim, mas naqueles tempos ns tnhamos apenas catorze anos. Havia toda uma vida ali, a nos estender a mo, e ns mal podamos esperar que acontecesse.
Guilherme planejara sair do lar paterno, mesmo naquela ocasio, quando ainda acreditava que poderia superar sua herana, que seria possvel distanciar-se daquilo que o assombrava e o obcecava.
Mary Hellen deu de ombros. Nunca ficava to zangada como quando Ethan ou Guilherme falavam em seus objetivos para a fase adulta, deixando-a de fora. Talvez fosse porque ela nunca quis que nada mudasse.
 Eu no sei Neste momento, o passado me parece melhor do que o presente.
Guilherme julgou que Mary Hellen se referisse  morte sbita de Ethan.
 Entendo  Guilherme no fazia idia de como exprimir sua solidariedade. A notcia do acidente com Ethan o abalara sobremaneira.  Imagino que deva ter sido terrvel, para voc, perder seu marido como perdeu.
Mary Hellen cerrou os lbios. Que sentido faria dizer-lhe que ela j sentia a dor da perda de Ethan muito antes de Tucker Malone chegar a sua casa naquela abafada tarde de vero e contar que o marido morrera instantaneamente em uma coliso com um caminho, cujo motorista perdera o controle da direo? Por ser a pessoa sensvel que era, Tucker tentou esconder dela o fato de haver mais algum no carro com ele. Uma mulher. A ltima de uma lista. Mas Mary Hellen logo descobriu a verdade.
No era nada que no esperasse.
Todavia, Guilherme ignorava tudo aquilo, bem como a insacivel busca de Ethan pelas mulheres. Por que destruir suas iluses quanto quele que um dia fora seu melhor amigo?
 , foi terrvel  Foi tudo o que pde dizer. Havia espao agora entre as tbuas que eles com tanto cuidado prenderam, espaos que permitiam que o vento se infiltrasse no interior.
 A ventania est aumentando, Mary Hellen. Talvez seja melhor deixar essa viagem de volta ao tempo para outra ocasio. Voc no pode adoecer.
Mary Hellen no se importaria em ficar ali mais um pouco, com ou sem vento, absorvendo as memrias. Mas Guilherme estava certo, deviam ir embora.
Ela sorriu.
 Se eu adoecer, conheo um bom mdico para cuidar de mim
Prestes a descer, Guilherme parou e virou a cabea. Mary Hellen o fitava de um modo estranho.
 O que foi?
 Nada.  Mas seu olhar a incitava a falar.  Est bem, tenho de admitir. Estou tendo uma certa dificuldade em pensar no bad boy de Storkville como sendo o atual pediatra local.
Guilherme deu uma risadinha. s vezes, at ele se surpreendia. Mas isso em parte se deu devido a seu desejo de se tornar um sujeito diferente de seu pai o mais possvel.
 Entrei para a faculdade de Medicina, no entrei? Isso devia ter dado alguma pista de que eu falava srio a respeito de ser mdico.
Ela ofereceu-lhe suas desculpas.
 Julguei que fosse porque seria mais fcil cursar medicina do que tentar ser respeitvel.
Guilherme sups que devia esperar por aquilo. Por seu pai ter sido o conquistador barato que fora, e por suas prprias atitudes, entendia bem por que a opo que fizera por aquela carreira seria uma tal surpresa, no s para Mary Hellen, mas tambm para os demais cidados.
 Eu no era assim to malvadinho. Umas poucas travessuras inofensivas, uns pouco prejuzos que meu pai sempre cobriu
De volta ao presente, ao fit-la, ocorreu a Guilherme que era Mary Hellen, mais do que Ethan, que partilhava daquilo que ele se dispunha a revelar. Era Mary Hellen quem guardava seus segredos e o aconselhava. Sempre Mary Hellen
E Mary Hellen se casara com Ethan. E no apenas com seu encorajamento, mas com suas bnos.
 No foram as traquinagens que fizeram de voc o bad boy de Storkville, Guilherme.
 Ora Ento, o que foi?
Mary Hellen cerrou as plpebras por um instante, retornando no tempo. Quando tornou a abri-los, percebeu que a jornada no fora necessria. Isso, pelo menos, no mudara. Fit-lo, ainda agora, fazia seu corao bater mais depressa.
 Havia algo em voc, em seu semblante Um qu de perigoso.
E ainda estava ali, sob a superfcie. Aquele algo insondvel que arrepiava a pele de uma mulher, pelo simples fato de estar perto dele.
Guilherme achou graa.
 Voc est romantizando a coisa toda.
O romantismo nela desaparecera fazia quase trs anos.
 No, Guilherme. Estou apenas recordando  corrigiu, sorridente.   isso o que sempre apreciei em voc. Parecia no notar o efeito que causava nas garotas que o rodeavam. Ou nas mulheres. Sempre teve boa cabea.
Diferente de Ethan, Mary Hellen acrescentou para si mesma. Seu marido sabia o tipo de poder que exercia sobre o sexo oposto. E tirava proveito disso, sabendo us-lo com maestria. Agora, ao olhar para trs, percebia que seu maior erro fora no ter parado para observar isso, dando o devido crdito a tal proceder.
Guilherme dispensou seu comentrio com um gesto de mo. Mary Hellen estava permitindo que a amizade a influenciasse. Evidente que as garotas se interessavam por ele. Vrias delas, para ser franco. Embora as apreciasse, Guilherme sabia muito bem do que elas andavam atrs.
 As meninas se sentiam atradas pelo nome Caldwell. E pelo dinheiro de minha famlia.  Guilherme notou que devia estar soando amargo e tratou de se corrigir:  Voc e Ethan eram meus nicos e verdadeiros amigos.
Sem dvida. Ningum jamais se importou com Guilherme como Mary Hellen.
Ethan sempre tomava sua defesa, era o que Mary Hellen podia dizer sobre ele.
Achou divertida a imagem do pobre menino rico que lhe veio  mente.
 Olhando para voc, ningum poderia adivinhar Poderia ter tido todas as namoradas que desejasse. Elas viviam a rode-lo.
Mary Hellen sabia que Guilherme dormia com algumas delas. Estar a par disso a manteve acordada, vrias noites, cheia de mgoa. Desejara muito ser vista por ele com aquele tipo de interesse. Mas isso jamais acontecera.
 Por que no se casou, Guilherme?
Ele no esperava por aquela pergunta. Deu de ombros, com indiferena.
 Porque nunca encontrei ningum que pusesse a sinceridade acima de tudo.
"E porque sempre fui apaixonado por voc." O que Mary Hellen faria se lhe confessasse seu amor? Pensaria se tratar de alguma brincadeira? Ou se fecharia, zangada? O melhor amigo de seu marido a cortej-la?
 Alguns homens nascem para ser solteires.
 No concordo.
Mary Hellen fez essa afirmao com plena convico. Teria Guilherme feito algo que o denunciasse, que a fizesse suspeitar da profundidade dos sentimentos que sempre acalentara por ela? Beijara-a, mas muitos outros deviam t-lo feito antes dele.
 O que a faz crer que no seja assim?
 Eu o conheo bem. Existem dois tipos de solteires emperdenidos. O primeiro  constitudo de sedutores inveterados, da espcie que s se importa com o prazer imediato, que quer apenas se divertir e em seguida partem para outra. Os do segundo time so contra as mulheres e no querem saber de nada com o sexo oposto.  Fitou-o, sugestiva.  Nenhumas das duas descries se ajustam a voc.
Havia algo nela, em seu jeito de falar, que o emocionava, despertando uma dolorosa saudade das coisas que poderiam ter acontecido.
 Tem absoluta certeza disso?
 Pode apostar.
Guilherme agia como se fosse beij-la. "Por favor, Deus, faa com que ele me beije!", Mary Hellen rezava. Mas em vez disso, entretanto, viu-o afastar-se.
 Voc no mudou, garota. Ainda  capaz de continuar argumentando comigo durante horas.
Mary Hellen tentou no demonstrar seu grande desapontamento.
 Todos ns precisamos de um passatempo.
Era melhor Guilherme voltar para casa, antes que se rendesse  tentao e fizesse amor com ela, ali e naquele instante, no mesmo local onde a inocncia deles esteve to bem resguardada.
 O meu  garantir que as pessoas no adoeam. Continuar sentado aqui, com a temperatura nessa queda brusca, seria uma insensatez.  Fez um gesto com a cabea em direo  porta.  Prefere ir na frente, ou devo abrir caminho?
Mary Hellen engoliu em seco, rendendo-se  lgica, dizendo a si mesma que devia estar imaginando coisas.
 V indo, eu o seguirei.
Como pouco depois se revelou, aquilo provou ser um grande plano, porque, de outro modo, ela poderia ter fraturado o tornozelo ou algum outro osso qualquer.
Justo quando Mary Hellen apoiou o p no terceiro degrau, ele se desprendeu. Um leve arfar escapou de sua boca quando sentiu que pisava em falso.
Sem demora, sentiu os braos de Guilherme a envolv-la, puxando-a de encontro ao peito.





CAPTULO VI


O ar pareceu ter abandonado seus pulmes, como se tivesse sido sugado deles. Era aquela perturbadora proximidade, e no a queda, que causava aquilo.
Ao agarrar-se a Guilherme, tentando equilibrar-se, Mary Hellen podia jurar ter sentido o corao dele bater em disparada, igual ao dela.
 Como o mdico mais prximo, aconselho voc a no tornar a subir em casas de rvore.  A sombra de um sorriso brincava em seus lbios.  Ou, pelo menos, no naquelas que precisem ser reformadas.  E Guilherme afrouxou os braos.
Mary Hellen no queria se afastar, no to rpido. Sabia que deveria faz-lo, mas no tinha foras. Virou a cabea para o lado e o fitou, memorizando cada centmetro, cada contorno de seus traos. Como se ainda no os tivesse gravados na alma
 Tem algum em mente para cuidar da reforma? Guilherme ordenou s mos que a soltassem, mas elas no o obedeceram.
 Ainda sou bastante habilidoso usando martelo e pregos.
Uma viso dele, sem camisa e com o suor brilhando na pele, surgiu diante de Mary Hellen. Levou um segundo para que se recobrasse.
 Voc  do tipo que cobra caro? No posso pagar muito.
Como se ele pudesse cobrar algo dela, mesmo se estivesse precisando. Guilherme soube, por intermdio de antigos conhecidos, que Ethan a deixara com muitos dbitos para acertar. Ainda bem que sua tia-av lhe deixara a manso vitoriana, uma sada para ela, bem a tempo.
 Podemos acertar alguma coisa.
Que ironia! S Deus sabia o quanto Mary Hellen desejava acertar "alguma coisa" com aquele homem to difcil!
 Promete?
O sorriso suavizou suas feies, tornando seu semblante quase infantil.
 Nada de promessas, lembra-se, Mary Hellen? Se no as fizermos, no correremos o risco de magoar ningum.
"Mas voc pode faz-las com os olhos, Guilherme." Como fizera com ela. Entretanto, independente de erros e acertos, ele estava por perto toda vez que se fazia necessrio. At o dia em que Mary Hellen se casou.
Lutou contra a amargura que ameaava abat-la. E perdeu.
Antes que pudesse reagir, viu-se destruda. Incapaz de evitar, rendeu-se aos sentimentos, aos instintos.
A paixo.
Erguendo-se na ponta dos ps, para que ficassem ao mesmo nvel, Mary Hellen pressionou os lbios nos de Guilherme. No saberia dizer o que foi que se apossou dela, para ser capaz de tal insensatez, para transformar uma simples brincadeira em suave intimidade. Exceto que queria beij-lo, com cada fibra de seu ser.
Precisava beij-lo, ter a boca de Guilherme colada a sua. Tinha de sentir aquela emoo embriagadora ganhando terreno em seu ntimo, tornando-a cativa de sua vontade.
Guilherme estivera lutando contra si mesmo, se esforando para fazer a coisa certa e no ceder  tentao de beij-la. De repente, tal deciso foi atirada longe.
Todas as nobres intenes viraram cinzas com o sabor dos lbios dela, com sua doura tirando dele toda a habilidade de raciocinar com sensatez, permitindo apenas que reagisse. Perdeu as rdeas dos pensamentos, e aproveitou o momento e a oportunidade.
Abraou-a pela cintura, incapaz de resistir a acentuar a proximidade entre ambos. Puxou-a para si, estreitando-a de encontro ao corpo.
Mary Hellen no ofereceu resistncia. Ao contrrio, ansiava por aquele contato, por estar prxima e sentir-lhe o pulsar das veias.
Um pequeno suspiro de contentamento escapou-lhe. Era maravilhoso ser abraada por Guilherme. S tinham estado assim na noite de seu aniversrio de vinte e um anos, quando danaram sob o cu estrelado. Ergueu a vista para fit-lo, esperando, suplicando.
 Apenas me beije, Guilherme  pediu, sem se importar mais se soava ou no atrevida.
Os olhos de Guilherme pareciam enxergar atravs de sua alma, procurando por algo Mary Hellen no soube direito o qu. E ento, ele soltou um gemido abafado.
Puxou-a mais, envolvendo-a em um abrao mais apertado, tornando a se apossar de sua boca.
Desde menino, tudo chegava fcil para Guilherme, exceto a aquilo que mais queria: Mary Hellen. Adoraria desvendar todos seus segredos, venerar cada centmetro de suas curvas, ali mesmo, sob crepsculo.
Mas e depois? Sua conscincia exigiu. Esperaria at que ela tornasse a pisar em falso? Aguardaria at que algo o fizesse partir e deix-la? Iria feri-la, como seu pai ferira sua me? Seria apenas uma questo de tempo, Guilherme era por demais parecido com seu pai para conceder qualquer desconto quela realidade. Sempre que se mirava no espelho eram os olhos dele que via a encar-lo. O rosto do sr. Caldwell. A medida que crescia, todos logo apontavam a grande semelhana, a similaridade que existia entre pai e filho.
Guilherme no queria ser nem se parecer como ele. Mas jamais poderia mudar a prpria aparncia. No entanto, poderia tomar alguma atitude para abrandar isso. Podia mostrar-se desinteressado e colocar rdeas nos prprios impulsos, para evitar que o inevitvel transparecesse.
Aquilo significaria no permitir jamais que seus sentimentos interferissem naquilo que sabia ser a atitude mais certa a tomar.
Mas era to difcil manter tal deciso estando ali, sob o luar, como agora, tendo Mary Hellen nos braos Quando podia senti-la calorosa, flexvel e desejosa contra si. Quando sua volpia era to grande quanto a dele prprio! Que espcie de homem era, afinal, tirando proveito da vulnerabilidade dela?
Mary Hellen pde notar que Guilherme comeava a se distanciar. Constatou com preciso o instante em que seus pensamentos se intrometeram entre eles, apenas um segundo antes do glorioso momento.
Trmula, recuou. Guilherme a deixaria. Aquilo era to certo como ele acabara de distanciar-se dela. Uma mulher tinha seu orgulho, mesmo sendo o pouco que lhe restava. Olhou para o cho, evitando encar-lo.
 Perdo. No sei o que deu em mim para agir desse modo.
Guilherme pegou-lhe o queixo e a fez erguer a cabea e fit-lo.
 No precisa se desculpar, Mary Hellen. Quem deve fazer isso sou eu.
Ele decerto no imaginava o quanto aquilo a machucava. Ela precisou fazer fora para manter a voz firme e no soluar, para conter as emoes, para que no explodissem.
 Por que diz isso, Guilherme?
 Quero que me desculpe por t-la beijado. Antes e agora.
Guilherme se arrependia, e muito, por ter provado o que no devia, o que no podia ter.
"Mas por qu?", seu corao gritava. Por que parecia to errado para ele nutrir qualquer sentimento por aquela mulher? Mary Hellen interpretou aquilo da nica maneira que sabia.
 Est dizendo isso porque sente que deve alguma lealdade a Ethan?
Como no obteve resposta, considerou como um assentimento. Sentia muita revolta diante da injustia, do peso do segredo que precisava carregar.
 Talvez, se tivesse ficado por perto e aprendido a conhecer o verdadeiro Ethan, no se sentisse to mal quanto a isso que acaba de acontecer.
 Eu conhecia Ethan. Sobre o que est falando?
 Nada. Esquea.
No fazia sentido comentar sobre coisas antigas que ocorreram entre marido e mulher. Tampouco sobre a desiluso que fora seu casamento. Talvez, se soubesse dos fatos, Guilherme acabasse por colocar a culpa nela.
E vai ver parte do que acontecera fora mesmo por sua culpa. Quantas noites passara acordada, pensando que, se tivesse sido mais mulher para Ethan, teria conseguido mant-lo a seu lado?
Mary, Hellen respirou fundo, recriminando-se pelo deslize.
 Vou para casa, Guilherme, estou cansada. Tentou passar por ele, mas Guilherme a pegou pelobrao.
Perscrutou-lhe o rosto,  procura de algum sinal, de alguma indcio que melhor explicasse a atitude dela. Mas sua expresso estava impassvel, seu olhar, vazio.
 H algo que eu deva saber, Mary Hellen? Ela no mais se conteve:
 Sim! Bem a, em seu peito! E dentro de voc que devia saber se existe alguma coisa!  Mary Hellen surpreendeu a si mesma. O que estava havendo? Forou um sorriso.  No importa. Esquea o que eu disse. Vou embora. Sugiro que faa o mesmo.
Mary Hellen passou por ele, deixando seu perfume no ar.
 Boa noite, Guilherme. Foi bom relembrar velhas histrias a seu lado.
Guilherme ficou onde estava, observando-a afastar-se, sabendo que se fosse atrs dela, mais tarde, um dos dois se arrependeria. E no podia permitir que acontecesse.
Mary Hellen estivera esperando por ele. Mesmo sabendo que no devia, ainda assim esperava.
Durante toda a manh seguinte, no importava o que estivesse fazendo, se cuidando dos gmeos ou brincando com as crianas da creche, ou conversando com os pais que vinham deixar os filhos, Mary Hellen mantinha-se atenta  campainha.
Embora soubesse que no devia, aguardava por Guilherme, querendo ouvir seus passos nos degraus da frente.
Durante todo o tempo, chamou-se de tola.
Quando Guilherme por fim chegou, toda sua autocensura saiu pela janela no instante em que girou a maaneta. E foi soprada para bem longe quando viu as flores na mo dele. Nada de um belo buqu amarrado com um lao de fita, mas um arranjo simples, do jardim que cercava a casa dele. Guilherme colhera rosas vermelhas para ela - Suas favoritas.
Levou um segundo para Mary Hellen desfazer o n que se formara em sua garganta. Ergueu os olhos para fit-lo, esperando no fazer algo tolo, como chorar.
 Voc lembrou Guilherme adentrou o vestbulo, e ela fechou a porta atrs dele.
 Difcil no lembrar. Voc costumava roub-las dos jardim das casas por onde passvamos.
Mary Hellen levou as flores at o rosto e sentiu seu perfume. Ele no se esquecera daquilo.
 Eu no as roubava. Que coisa feia pensar to mal de mim!
Guilherme franziu as sobrancelhas.
 Ah, no? Qual sua interpretao para cort-las dos jardins alheios e lev-las embora?
Mary Hellen sorriu.
 Chamo a isso emprestar. Porm, eu nunca voltava para devolv-las.
A expresso de puro deleite em seu semblante era mais valiosa do que a jia mais rara.
 Quer dizer que estou perdoado?
 Sim, est.  Riu, girando com o buqu. No prximo instante, Mary Hellen estremeceu.  Oh
 Que foi?  Guilherme olhou para a mo dela.  Cortei todos os espinhos.
Tomara todo o cuidado, imitando o jardineiro que vira fazer um buqu para sua me quando ele era criana.
 Bem, creio que voc esqueceu um  Mary Hellen ergueu o dedo para provar o que dizia. Uma gota de sangue saa do ferimento.  No foi nada.
Ela ia pr o indicador na boca, como sempre fazia quando se machucava, quando Guilherme tomou-lhe o pulso. O corao de Mary Hellen disparou. Ele ia sugar-lhe o dedo.
Mary Hellen no pde desviar o olhar, e foi assaltada por grandes e desencontradas emoes.
 No tem medo de se envenenar?  ela resolveu brincar, porque, caso contrrio, seria capaz de atirar-se nos braos dele mais uma vez, embaraando a ambos.
O sorriso de Guilherme foi direto para seu corao e aqueceu suas entranhas.
 Bem, talvez seja melhor eu ir ver se Sammy e Steffie esto passando bem.
Mary Hellen se forou a sorrir e readquirir autocontrole.
 Sim, isso mesmo. Irei com voc.
  bem estranho  Margheritte murmurou para Mary Hellen, surpresa, pouco depois.  Para um homem to ocupado, que mal consegue parar para respirar, Guilherme Caldwell no economiza tempo vindo aqui.  Pegou uma bandeja com cookies de chocolate do forno e depositou-a sobre o tampo do fogo.
Fazia mais de uma semana desde que os bebs foram deixados  porta da creche, e nenhuma pista da pessoa que os deixara ali. E Guilherme fazia questo de passar todos os dias por l para ver os gmeos, sempre na hora do almoo ou aps o expediente no consultrio, monitorando o progresso deles.
Embora tentasse no fazer isso, dizendo a si mesma que era tolice, Mary Hellen aguardava ansiosa por suas visitas.
Adorava v-lo chegar
Mas tentava parecer imparcial, ao defender a atitude de Guilherme:
 Ele est me fazendo um favor vindo ver os pequenos.
 Sim, claro  Enxugando as mos na toalha, Margheritte lanou-lhe um olhar de cumplicidade.  No  s as crianas que Guilherme vem ver.
Com Penny Sue e Gwenyth na sala da frente com os garotos, Mary Hellen comeou a preparar um prato de bolachinhas para levar para eles, com o lanche da tarde.
 Guilherme teme que Sammy e Steffie possam estar com algum vrus no manifestado, e por isso, cair doentes.
Margheritte dispensou a desculpa com uma risadinha.
 Pois eu acho que  nosso bom doutor que pode estar caindo e no doente, mas por algum.
Mary Hellen parou de arrumar os cookies e encarou Margheritte com visvel reprovao.
 E no me olhe desse jeito, Mary Hellen Dawson. Enxergo muitssimo bem.
A ltima coisa que desejava era ter Margheritte espalhando rumores. Extrovertida, amigvel e socivel, a ajudante conhecia a todos em Storkville.
 Bem,  melhor no descuidar dos gmeos. Eles precisam ser examinados com constncia. E  Mary Hellen Brady, no Mary Hellen Dawson, certo?
 Bobagem  Pegando uma segunda bandeja e colocando-a perto da primeira, Margheritte ficou sria.  Voc se casou com o homem errado, menina.
Ela sabia disso, talvez sempre soubesse, mas no admitia que algum dissesse aquilo.
 Casei com aquele que me props casamento, Margheritte. Que confessou me amar e me querer como sua esposa. Guilherme nunca fez isso. Nunca.
Margheritte notou a tristeza no rosto dela.
 Desculpe-me, no pretendia aborrec-la, meu anjo.  Margheritte baixou a cabea.  Acho que algumas vezes eu falo demais.
Mary Hellen pousou a mo no brao da amiga.
 Perdo, Margheritte, eu no pretendia ser rude. Mas  que Bem, minha vida anda meio complicada, sabe?
  o amor que est causando isso, amorzinho.
Mary Hellen parou  soleira, com uma bandeja na mo, e se virou.
 O que foi que disse?
 Eu estava falando para meus botes que voc anda nervosa porque tem dormido pouco  Margheritte respondeu, com fingida inocncia. Pegando a segunda bandeja que Mary Hellen havia preparado, ps-se a segui-la.  Por que no me deixa ficar aqui esta noite e vai para minha casa? L voc ter todo o sossego de que precisa para dormir uma noite inteirinha, porque ningum ir perturb-la. A no ser que queira ser perturbada, lgico.
Margheritte colocou o que carregava sobre a mesa, deixando para Penny Sue a tarefa de distribuir o lanche. A crianada rodeou-a, fazendo a maior barulheira.
Afastando-se, Mary Hellen ergueu o tom de voz, enquanto inclinava a cabea perto do ouvido de Margheritte.
 Voc est perdendo uma grande chance servindo como voluntria nesta creche, Margheritte. Devia estar trabalhando em uma agncia matrimonial.
Margheritte cerrou os lbios, fitando Mary Hellen.
 . Mas parece que no tenho dado muita sorte nesse departamento.
Ela ento observou a mdica jovem e loira na sala da frente, que, junto com Penny Sue e Gwenyth, cuidava dos garotos. Recm-chegada  cidade, oferecera seus servios  creche, e vinha com freqncia nas ltimas semanas, apesar de trabalhar por tempo integral em uma clnica e ter sua casa para cuidar.
 Espero obter maior resultado com minha receita milagrosa. Bem, no eu, exatamente  Margheritte passou a sussurrar.  Mas a dra. Becky. Vou preparar uma poro para ela esta manh. Se no der certo, receio que nada mais dar.
Mary Hellen estudou a mulher sobre a qual falavam. A dra. Becky, na verdade, era a dra. Rebecca Fielding, que junto com seu marido, o dr. Mike Fielding, trabalhava no Hospital Geral de Storkville.
Rebecca tentava engravidar fazia quase um ano, sem sucesso. A grande ironia em toda a histria era o fato de ser ginecologista obstetra e, por isso mesmo, muito interessada no assunto, estando sempre a par dos ltimos avanos no campo da fertilidade.
Frustrada e desesperada por no conseguir seu intento, Rebecca parecia prestes a concordar com a teoria de Margheritte de que sua receita secreta era milagrosa, obtendo timos resultados onde a cincia e as maquinaes da natureza humana falhavam.
Talvez Becky estivesse apenas brincando com Margheritte, Mary Hellen conjeturou.
 Mas Becky ainda no fez uso dela, Margheritte?  No. Entretanto, est pensando a srio no assunto
 Suspirou, observando Becky distribuir os cookies aos pequenos.  Pobrezinha! Posso ver a frustrao em seus olhos toda vez que conversamos. Deseja tanto ter um beb!
Margheritte se voltou para Mary Hellen.
 E toda mulher precisa ter filhos. Pelo menos um.
Mary Hellen no se ofendeu diante das implicaes. Ali, pelo menos, Margheritte estava certa, em sua opinio.
 Eu tenho meus bebs, querida. Dois, alis.  Indicou os gmeos, em seus assentos, tagarelando um com o outro, em sua linguagem infantil. Ficaria ali a observ-los durante horas, se pudesse.  Posso at ficar com Steffie e Sammy para sempre, se a me ou o pai deles no os reclamar.
E naquele momento aquilo parecia ser algo muito bom, Mary Hellen decidiu. E no adiantava mais tentar manter distncia deles para se resguardar, para o caso de Tucker conseguir localizar seus pais. Sttefie e Sammy j haviam conquistado seu amor.
 Mesmo reclamando-os, levar tempo at que consigam a custdia dos bebs  Margheritte apontou.
Se aquela fosse uma cidade grande, sim. No entanto, as pessoas tendiam a ser mais clementes em Storkville.
 Tenho a impresso de que o delegado amolecer, se eles de se mostrarem sinceramente arrependidos.
Margheritte discordava.
 No sei Malone costuma ser duro em questes de abandono de crianas. Acredita que as pessoas tm de assumir suas responsabilidades. Ele e Guilherme tm muito em comum.
No havia necessidade de valorizar Guilherme para ela. Mary Hellen j pensava nele como sendo um cavalheiro. Porm, no entendeu o significado do que dissera Margheritte.
 Mesmo? Em que sentido?
Para no ser ouvida pelos demais, Margheritte se afastou da porta.
 Bem, Guilherme voltou, no ? Para providenciar o funeral do pai. Depois do modo como deixou Storkville, eu no imaginava que algum dia resolvesse retornar.
Mary Hellen encarou a amiga. Nunca soubera ao certo o que houvera com Guilherme naquela ocasio. Apenas que, em algum ponto durante a recepo, Guilherme se fora.
S foi bem mais tarde, naquela noite, quando ela e Ethan estavam de partida para a viagem de lua-de-mel, Mary Hellen soube que Guilherme no apenas deixara a festa, mas tambm a cidade.
 Voc viu quando Guilherme partiu, Margheritte?
 Sim, vi. Por pouco no passou por cima de mim com aquele carro. Evidente que no deve ter me visto. Mas eu o avistei por um instante. Parecia uma alma atormentada, e em fuga.  Margheritte suspirou.  Deve ter havido uma grande desavena entre ele e o pai.
As coisas nunca mais foram as mesmas entre aqueles dois, aps a me de Guilherme ter sofrido aquele ataque do corao e morrido.
Anna Caldwell morreu sozinha em seu quarto. O marido estava fora de Storkville quando aconteceu. Guilherme encontrou-a sem vida ao ir desejar-lhe boa-noite.
Mary Hellen lembrava bem o quanto Guilherme ficara desesperado. Jamais o vira sofrer daquele jeito. Vira lgrimas brilhando nos olhos dele. Embora no parecesse muito prximo da me, sua morte o abalara por demais.
Mary Hellen fizera o melhor para confort-lo, permanecendo a seu lado durante todo o funeral, mas no havia como. Guilherme foi se esconder no mesmo lugar de sempre quando desejava distanciar-se de tudo o que ocorria em torno dele.
Mary Hellen sofreu por seu amigo, naquele dia. E tambm em vrios outros.
 Mas Guilherme voltou para terminar assuntos que deixou inacabados, seja l quais forem.  Margheritte deu de ombros.  Isso para mim faz dele um grande homem.
Mary Hellen no entendeu.
 Do que  que est falando, Margheritte?
 Do pai dele. Aquele homem nunca teve boa ndole. Os dois podem, ser pai e filho, ter o mesmo nome, mas no se parecem nem um pouco. Guilherme Caldwell sempre foi falso e superficial, apesar de charmoso. J nosso doutor, Guilherme Jr., pode no sorrir muito, mas  sincero, sensvel e possui um excelente corao.  Encarou Mary Hellen, sugestiva.  Lembre-se disso, meu bem.
Mary Hellen no viu razo para o aviso.
 Sim, fique tranqila.
De repente, o sorriso de Margheritte se alargou e ela apontou para a frente.
 timo! Porque parece que Guilherme acaba de chegar!



CAPTULO VII


Ainda segurando a bandeja com os cookies, Mary Hellen virou-se e abriu a porta com a mo livre. Afastou-se para o lado para que Guilherme entrasse. Na parede do escritrio, o relgio de seu bisav bateu duas horas. Ele estava atrasado.
 Julguei que no viesse hoje  disse ela, a sua passagem.
 Quase no vim, mesmo
O que Mary Hellen ouvira de Margheritte martelava em sua mente. Talvez Guilherme tivesse concludo que no havia mais necessidade de vir com tanta freqncia. Poderia at mesmo informar que era a ltima vez que viria.
 Ah, ?
 Precisei atender a uma emergncia. Bem, pelo menos a sra. Donovan julgou que fosse. Seu filho enfiou no nariz uma pecinha que soltou de um brinquedo. De acordo com o que a sra. Donovan falou, o menino comeou a gritar quase que de imediato.  Guilherme balanou a Cabea.  O delegado Tucker Malone a levou com Teddy a meu consultrio.
 Por que Tucker?  Mary Hellen quis saber.
 Parece que a sra. Donovan cruzou por todos os faris vermelhos da cidade, temendo que o garoto pudesse morrer. Teve sorte de chegar ao consultrio sem ter causado nenhum acidente.
Conhecendo os dois, Mary Hellen podia at imaginar a cena. Guilherme, no meio de um turbilho, tentando, muito calmo, fazer seu trabalho, enquanto a sra. Donovan se lamentava, chorosa, e apertava as mos, com seu filho gritando.
 Sendo assim, devo crer que voc conseguiu livrar o garoto do incmodo.
 Sim, mas no sem protestos veementes da parte dele. Meus tmpanos ainda esto doendo. Se aquele pequeno no se tornar um cantor de pera, ser uma grande perda para um mundo.
Pela primeira vez, Guilherme notou o prato com os cookies na mo dela. Os de chocolate sempre foram seus favoritos.
 Posso, Mary Hellen?
 Claro! Por favor
O modo como Guilherme olhava para os doces causou nela vontade de tambm comer um deles.
 Voc est com sorte, porque hoje estou altamente subornvel.
O sorriso que surgiu nos lbios dele era muitssimo sensual.
 O que pretende pedir em troca, Mary Hellen? Fingindo ponderar a respeito, ofereceu a ele um docinho, que Guilherme aceitou de imediato. Mary Hellen observou-o lev-lo  boca com o entusiasmo de um garotinho. Havia prazer genuno em sua expresso. Seria possvel ter inveja de um cookie, indagou-se.
 Apenas um pouco de conversa adulta. Mas sem mencionar bebs, por favor, e muito menos que eu devia comear pensar sobre me tornar uma verso mais atual da Viva Alegre. A opereta  acrescentou, para o caso de ele no ter entendido ao que ela se referia.
Mais um cookie desapareceu em segundos. Guilherme, ento, a fitou.
 Mary Hellen Dawson, est querendo me diminuir?  Dawson Era a segunda pessoa a cham-la desse modo naquele dia. Mary Hellen notou que seu sobrenome de solteira parecia mais apropriado a ela do que o de casada. Engraado Pensando nisso agora, tinha de admitir que se sentia mais Mary Hellen Dawson do que Mary Hellen Brady. J no lembrava mais como era se sentir como sendo Mary Hellen Brady. Era quase um alvio deix-la l atrs, no passado.
 Diminu-lo? Eu jamais sonharia em fazer isso, Guilherme. Acontece que a maioria dos homens no aprecia muito operetas e os antigos musicais para conhecer seus nomes.
 Pois saiba que eu conheo. E se esse foi seu modo de dizer que sou nico, aceito o elogio.
Recostada na parede, Mary Hellen soube que poderia ficar ali conversando com Guilherme para sempre. Brincavam entre si como nos tempos de escola, algo de que sentia muita falta.
 Est querendo elogios?
Como Mary Hellen parecia estar de bom-humor, Guilherme se permitiu pegar mais cookies. Afinal, j passava bastante da hora do almoo, e seu estmago comeava a reclamar de fome.
 Foi uma manh e tanto. Dana Hewitt trouxe os trigmeos para serem examinados. E na visita estava includa a revacinao.  Em certas horas, ser pediatra era um verdadeiro desafio. E assim fora at aquele momento. Precisaria de mos extras para dar conta do recado.  Acha que dois gmeos do muito trabalho, ento imagine trs. Aquela mulher merece uma medalha!
 Tenho certeza de que Dana no trocaria de lugar com nenhuma outra pessoa.
 Voc deve ter razo, Mary Hellen. Entretanto, esses doces esto muito gostosos. Foi voc quem fez?
 No. Fazer coisas gostosas  mais um dos talentos que Margheritte trouxe para este lugar.
Ao virar um pouco o rosto, viu Margheritte de relance, junto  mesa, desenhando algo para trs das crianas maiores. Um olhar cheio de afeto surgiu em seu semblante ao observar Mary Hellen e Guilherme.
 Ela adora uma novidade, e possui um grande corao. Eu estaria perdida sem Margheritte. A creche comeou a funcionar h bem pouco tempo, e ela j se tornou indispensvel.  Mary Hellen suspirou, s voltas com a realidade.  Gostaria de poder pagar pelos servios dela.
 Logo poder fazer isso. Ela se sente recompensada, pode acreditar.
Guilherme estudava a outra mulher. A julgar por seu jeito, Margheritte se divertia muito ali, convivendo com a crianada.
 Os garotos podem nos enlouquecer, Mary Hellen. Mas, por outro lado, nos mantm jovens de corpo e de esprito.
Uma bola de borracha veio voando naquela direo. Mary Hellen a pegou no ar antes que atingisse algum.
 Contudo, no evita que nos tornemos um alvo fcil.  Encarou, muito sria, os dois garotinhos que vieram correndo atrs da bola. Em vez de entregar-lhes o brinquedo, Mary Hellen comeou a jogar a bola para o alto e apanh-la.  O que eu lhes disse sobre jogar bola dentro de casa? 
 Que era proibido  os dois responderam em unssono.
 E bom no tornarem a esquecer. Vo brincar l fora.  Mary Hellen entregou o brinquedo ao menino que estava mais perto dela, Neil, de quatro anos.  E voc, Guilherme? No vai entrar?
 Julguei que j tivesse entrado
 Estou me referindo a entrar na sala.  Ela fez um gesto em direo  sala de estar onde sua tia-av, quando jovem, recebia seus pretendentes, sempre vigiada pelos olhares atentos do pai.  Sente-se e aprecie seu cookie.
As palavras dela o divertiram.
 Querendo bancar a durona comigo?
 No. Apenas a responsvel por uma creche. Dar ordens  decorrncia disso.
Assim como ter olhos na nuca, pensou ela. Virando-se, fez contato visual com Ricky Fellows e respirou fundo. Rcky puxou a trana de Lily Allens e correu para longe, para se esconder. Mais tarde ela conversaria com aquele danadinho.
Mary Hellen tinha uma grande habilidade em lidar com os pequenos, sendo autoritria sem ser severa demais, percebeu Guilherme. Na verdade, era bem mais autoritria do que ele julgava que fosse capaz de ser.
 Notei que todos aqui a respeitam.
 Ser maior do que eles tem l suas vantagens.  Riu para si mesma.  Lembro-me bem de quando eu pensava que ser alta era a pior coisa que poderia ter me acontecido. Sentia-me gigante perto das outras garotas, e desengonada.
Guilherme jamais a vira do mesmo modo.
 Voc era chamativa.
O eufemismo a fez gargalhar.
 Sim,  fcil dizer isso agora. Onde voc estava quando poderia ter usado algum para me dar apoio?
Para ele, Mary Hellen sempre fora autoconfiante e firme. Ele nunca pde bancar o Lancelot para sua donzela em desespero. Ela jamais esperaria isso dele, nem sequer toleraria.
 No me recordo de algum dia voc ter precisado de apoio.
Guilherme jamais saberia. Ele e Ethan implicavam bastante com ela, mas Mary Hellen sempre se mostrou segura como uma rocha. Com o passar dos anos, os dois pararam de agir assim.
 Isso  porque voc vivia cercado por suas fs e no conseguia enxergar alm do crculo apertado que elas formavam a seu redor.
Quando foi que ela aprendeu a ser exagerada?
 Que curioso No me lembrava de que sua imaginao era to criativa.  Guilherme olhou para a bandeja, ainda na mo dela. Como conseguia comer tantos cookies?  Acho que acabei com todo seu estoque.
 H mais na sala ao lado, se quiser arriscar ir at l. Ele arqueou as sobrancelhas, intrigado.
 A esta hora as crianas j tiraram um cochilo e devem estar prontas para derrubar as paredes.
Guilherme achou graa. Entrou na sala e foi em direo  outra travessa de doces sobre a mesa.
 J experimentou alguma atividade com eles que os acalme? Ler histrias, por exemplo.
Aquilo era tudo o que os meninos precisavam ouvir. Mary Hellen olhou com ternura para eles. Qualquer atividade, e at mesmo os docinhos, eram esquecidos diante da meno de sua palavra favorita.
 Uma histria?  Um garotinho chamado Jonathan se voltou para eles, empolgado.
De repente, o coro de "Histria! Histria!" ecoava pelo ambiente. Antes que se desse conta do que estava acontecendo, Guilherme se viu acossado por quase doze rostinhos levantados, todos encarando-o com ansiedade.
Do centro do "ringue", Guilherme voltou-se para Mary Hellen. Podia ouvir Penny Sue e Becky rindo, ali por perto.
 J vi que esse  um termo proibido por aqui.
 Depende de quem voc seja.  Mary Hellen aproximou-se para resgat-lo.  Creio que ser melhor colocar mais alguns cookies no bolso e tentar escapar enquanto pode. Eu os distrairei. Sammy e Steffie se encontram na sala ao lado, ainda dormindo.
Mas Guilherme no tinha pressa de partir.
 Est bem, ainda tenho alguns minutos antes de voltar ao consultrio. Minhas duas prximas consultas foram desmarcadas. Dar para ler uma historinha que no seja muito longa.
Na creche havia livros infantis de todos os tamanhos, graas  biblioteca que a tia-av de Mary Hellen mantinha na manso. Mary Hellen olhou para uns poucos volumes sobre a mesinha.
 Que tal a histria do dr. Seuss? Guilherme estendeu a mo para o livro.
 Justo o que eu ia sugerir.
Era o autor infantil favorito da garotada. Selecionando um de seus contos mais populares, Mary Hellen deu o livro para Guilherme, sentou-se e esperou que ele iniciasse a leitura.
Ento, ficou agradavelmente surpresa.
No era fcil conciliar o menino rebelde que certa vez conhecera, e amara sem que ningum soubesse, ao homem de cabelos escuros e olhos azuis que agora sentava-se  moda indiana no piso, cercado por uma audincia atenta a cada uma de suas palavras, embora todas elas j tivessem sido memorizadas pela mesma audincia.
Guilherme escolhera a profisso certa, Mary Hellen concluiu ao observ-lo. Crianas eram intuitivas, e portanto capazes de sentir quem gostava delas ou apenas fingia gostar. E no havia o menor fingimento em Guilherme Caldwell. Qualquer um podia ver que ele adorava estar ali, entretendo os pequenos.
Guilherme lia para os meninos com sentimento e entusiasmo, sua entonao assumindo a natureza de cada um dos personagens da narrativa. No apenas lia como tambm interpretava, Mary Hellen notou. E as criancinhas estavam fascinadas.
 Mais uma!  gritaram em coro, quando ele, por fim, fechou o livro.
Erguendo-se, Guilherme fitou Mary Hellen num mudo pedido de ajuda. O simples apelo aqueceu seu corao. Gostara de idia de que, por um instante, ela e Guilherme voltavam a ser um time.
 O dr. Caldwell tem de voltar para o consultrio, garotos. Mas, se vocs se comportarem, posso garantir que ele voltar em breve.  Mary Hellen pegou-o pelo brao e o afastou de seus admiradores, conduzindo-o para ao vestbulo.
 Gostei de v-la lidar com eles, sobretudo da promessa que fez para que se comportassem.  Diante da porta, quando ela virou-se para fit-lo, Guilherme se viu sorrindo dentro dos olhos dela. E perdendo-se dentro deles.  No falha nunca, no  mesmo, Mary Hellen?
Ela no diria isso. Porm apreciara o que ouvira.
 Posso ser mais alta, mas eles ganham de mim em nmero. Se no me mantiver atenta, sem dvida assumiro o controle.
Guilherme colocara a mo na maaneta, quando lembrou:
 Ia me esquecendo. Como tm passado os gmeos? Na verdade, no havia motivos para examin-los. Ambos encontravam-se fortes e saudveis.
 Muito bem, e ficando mais espertos a cada dia. Steffie sarou do resfriado, e Sammy no d sinal de que ir se resfriar.  Uma certa tristeza sombreou seu olhar. Mary Hellen procurou disfar-la, colocando as inos nos bolsos.  Isso significa que voc no precisar mais vir aqui todos os dias.
Naquele momento, ela quase pareceu vulnervel.
 No passo na creche apenas para ver os gmeos.
 Verdade?  Mary Hellen sabia que no deveria estar prendendo o flego, mas estava.
 Verdade. Gosto de estar na companhia de velhos amigos.
Mary Hellen disse a si mesma que aquilo devia ser suficiente, e que eles no podiam passar daquele estgio. Achou graa.
 Por favor, pule essa parte de "velha", est bem?
 Voc est a lguas de distncia de ter de se preocupar com velhice. Diga-me uma coisa: conseguiria algum para ficar com Sammy e Steffie esta noite?
Mary Hellen pensou em Gwenyth, mas sua prima andava ocupada aprontado a casa que alugara. Assim, preferia no pedir-lhe nada.
 Margheritte ficaria. Ela vive se oferecendo para cuidar com eles. Por qu? O que tem em mente?
 Nada de mais, apenas um jantar tranqilo e longe do tumulto. Depois talvez possamos ir ao cinema. Como nos velhos tempos. O que acha?
Nos velhos tempos eles eram trs saindo juntos e fazendo aquelas mesmas coisas. Mesmo quando ela e Ethan comearam a namorar.
 Acho maravilhoso
Guilherme quase ligou para Mary Hellen, por duas vezes, para cancelar, censurando-se nos confins da conscincia durante toda a tarde e no trajeto de volta  residncia. Seria um erro e tanto seguir em frente com aquilo. V-la na creche com todas as crianas e adultos Por perto era uma coisa; estar com Mary Hellen a ss, em uma mesa de restaurante arrumada para dois, era outra.
O qu, afinal, eu estava pensando quando a convidei para sair?! Ora, confesse, Caldwell. Seu nico interesse era jantar com uma bela mulher. S os dois, isolados de todos e fingindo, por um instante, que nossas aes no tero conseqncias. E que eu no tenho problema algum, nem uma herana maldita pesando contra mim
Que mal causaria fingir, s uma vez que fosse? Guilherme ainda prosseguia com o tenso e silencioso argumento a caminho da casa de Mary Hellen.
Hora de parar com aquilo, ordenou a si mesmo, desligando o motor. Respirou fundo e saiu do veculo.
Aquilo era ridculo. No se lembrava de ter ficado to nervoso ao chegar para apanhar uma garota. Mas Guilherme nunca sara para jantar com Mary Hellen, no sem ter mais algum junto. Lgico que houve aquelas longas conversas e as deliciosas noites passadas na companhia um do outro, mas ento havia sempre um livro de escola entre eles, a inicial justificativa para estarem lado a lado.
Nunca, em todos aqueles anos, Guilherme se aproximara da porta da residncia dela com a inteno de sarem para passear sem que Ethan estivesse presente.
Confiana em si mesmo era uma coisa admirvel, pensou ele ao se aproximar da entrada principal. Mas s se percebe isso quando ela est ausente.
Chamando-se de idiota, Guilherme subiu apressado os quatro degraus, antes que mudasse de idia e desse meia-volta.
Mesmo indo em frente com aquilo, para eles dois, com certeza, no existia futuro alm daquela noite.
Guilherme no estava certo se pensar assim o aliviou ou entristeceu.
Aquela era Mary Hellen, cuja presena tanto o agradava. Mary Hellen, que sempre fizera parte de tudo em sua vida, que sempre fora amvel, transparente e decente com ele. Quando o horror em sua prpria casa ameaava abat-lo, quando no conseguia suportar estar entre as mentiras e os enganos atrs das paredes da elegante propriedade dos Caldwell, Guilherme saa  procura dela, de Mary Hellen, e dos pais dela, que eram to normais, to calorosos.
Ser to bem recebido por aquelas pessoas fazia-o lembrar-se de que o mundo no era to ruim, que existia gente boa e que alguns homens conseguiam se manter fiis s esposas que os amavam.
Mary Hellen era parte da luz, e Guilherme, da escurido, concluiu ao tocar a campainha. No podia haver esperana alguma para ele e Mary Hellen, porque Guilherme no se permitiria macular aquela luz.
Guilherme ficou tenso ao ouvir passos do outro lado da porta.
Ao ouvir a campainha, Margheritte foi at  escada e chamou:
 Ele chegou, Mary Hellen! No o deixe esperando!
Mary Hellen sentia como se estivesse prestes a sofrer uma crise nervosa. Estaria resfriada? Com febre? Perguntou-se, olhando para si mesma no espelho do quarto, e vendo apenas desastre.
Porque se tivesse o poder de adoecer de uma hora para outra, faria isso. Sem sombra de dvida.
Todas as roupas dos armrios foram experimentadas e descartadas, por julg-las, sem exceo, inadequadas para a ocasio. No tinha nada para vestir, e por isso no queria mais sair.
No pretenda desapontar Guilherme, no entanto.
"Pare com isso, mulher!", ordenou a si mesma.
As carreiras, calou os sapatos que combinavam com o vestido e pegou a bolsa.
A caminhada at a escadaria foi custosa, como se ela estivesse dando seus ltimos passos. Margheritte, parada ali, esperava-a.
A campainha tornou a tocar, e Margheritte olhou para ela, em expectativa.
Mary Hellen tomou flego, expirou e desceu.
 Achei que as moas de sua gerao costumavam deixar os rapazes esperando.
Margheritte bufou. Isso podia ser moda naquela poca. Agora,  falta de educao. Alm disso, voc j o deixou a sua espera tempo demais, no ? Ento, o que me diz?
 O que eu digo  Mary Hellen parou para beij-la no rosto.  Bem que voc deve estar aspirando talco demais, e isso est fazendo com que confunda as coisas. Eu e Guilherme somos apenas amigos.
Margheritte assentiu.
 A amizade  um bom ingrediente na mistura, e um bom ponto de partida. V abrir O coitado est plantado l fora.
Mary Hellen sentiu como se estivesse usando as pernas de outra pessoa ao andar at o hall e girar a maaneta. A voz de outro algum escapou de seus lbios:
 Ol
Guilherme j comeava a achar que Mary Hellen tinha feito confuso com a noite que marcara para sarem, e que no estivesse em casa. Mas, quando a porta foi aberta, a viso diante dela congelou todo seu raciocnio.
Mary Hellen usava um vestido azul, simples e elegante, cujo tecido parecia acariciar cada curva de seu corpo.
E o deixava com vontade de fazer o mesmo.
 Ol!  disse ele, com um grande esforo. Em seguida, ergueu os olhos para o rosto dela.  O que fez com seus cabelos?
"Eu sabia!" Devia t-los deixado soltos.
 Por qu? No gostou?  Mary Hellen j levara a mo a um dos grampos.  Posso solt-los
Guilherme segurou seu pulso, impedindo-a.
 Gostei muito.
Havia algo no modo como ele a fitava que a aquecia por inteiro.
Mary Hellen por pouco no se derreteu, quando Guilherme pegou seu chale e, com extrema delicadeza, ajeitou-o sobre seus ombros.
Por fim se acalmando o suficiente para poder falar, ela virou-se para Margheritte.
 Obrigada mais uma vez, minha querida, por ficar para tomar conta dos gmeos. No vamos demorar.
 No se preocupem comigo. E divirtam-se.
 Ns nos divertiremos  afirmou Guilherme, por sobre o ombro.
Pegou a mo de Mary Hellen e a impeliu para fora. Mary Hellen ficou embaraada. Ser que Margheritte no podia ser menos bvia?
 Fiquei vermelha, Guilherme?
Parando ao lado do automvel, ele fingiu observar seu rosto de perto. E esboou um lindo sorriso.
 Deliciosamente vermelha.
O som de sua gargalhada ajudou a relaxar a ansiedade de Mary Hellen. Mas no muito
CAPTULO VIII


Mary Hellen sentiu o olhar de Guilherme sobre si. Quando ergueu a cabea para fit-lo, ele indicou o prato dela e franziu as sobrancelhas. Ela mal tocara a refeio.
 Eu no lembrava de que voc comia feito um passarinho.
No que a comida no fosse boa. Pelo contrrio, estava saborosssima. Mas o n em seu estmago no afrouxara o suficiente para permitir que apreciasse o jantar. Dizer a si mesma que estava agindo feito uma tola no adiantava em nada.
 A bem da verdade, esse  um conceito errado. Dependendo do pssaro, eles conseguem comer em um dia uma quantidade trs ou quatro vezes maior que seu peso.
Guilherme riu, antes de tomar um gole de vinho.
 Dessa parte eu me recordo.
Ao lado deles, a banda comeou a tocar uma balada romntica.
 Do qu? Algo sobre pssaros?
 No, sobre voc me corrigir. Vivia fazendo isso.
Mary Hellen sempre fora assim, intrpida, no permitindo que Guilherme continuasse com um conceito errado das coisas, quando ela podia consert-lo.
 Sua me nunca lhe disse que admoestar algum diante de todo o mundo poderia causar um grande estrago ao seu ego?
Mary Hellen apanhou sua taa e tomou seu vinho. A impresso que teve foi de que a bebida subiu direto para sua cabea. Ou era Guilherme quem causava aquele efeito?
Encarou-o. A luz das velas nas pupilas de Guilherme faziam-no parecer ainda mais misterioso do que lhe parecera nos ltimos dias. Talvez devido ao efeito do lcool ele estivesse mais relaxado do que em geral, e a sombra de um sorriso desenhava-se em seus lbios sensuais, conferindo-lhe com uma aparncia mais que sedutora.
 Pelo que sei, seu ego  perfeito. E minha me sempre me falou para ser eu mesma.
Guilherme devia saber que no poderia ser de outro modo. Era o que a tornava nica para ele. Mary Hellen sempre teve coragem de expressar suas convices, fazendo e dizendo o que achava ser certo.
 Mulher inteligente sua me. Sempre gostei muito de seus pais.
Os pais de Mary Hellen tinham morrido fazia algum tempo, com seis meses de diferena entre um e outro, e Guilherme perdera os dois funerais por no ter sabido dos falecimentos at ser tarde demais at mesmo para enviar condolncias.
Inclinou-se sobre o tampo.
 Voc deve sentir muita falta deles, no ?
Mary Hellen deu de ombros. Fora mais difcil lidar com a perda dos pais do que com a de Ethan.
 No h um s dia em que no lembre dos dois, em que no sinta saudade.
Guilherme podia entender aquilo muito bem.
 Pelo menos os teve algum dia.
 Voc tambm teve seus pais. Ele cerrou os lbios.
 Mas no foi igual. Os meus no eram gente calorosa como os seus.
Guilherme nunca fora muito chegado aos pais, nem mesmo  me, que ele amava. Entre os trs nunca houve aquela unidade que ele sentia haver na famlia dela.
Mary Hellen sabia que aquele era um assunto doloroso para Guilherme, e no insistiu.
 Papai e mame tambm gostavam muito de voc. Seu corao se aqueceu com as lembranas. Guilherme costumava ir tanto  casa dela que os Dawson j comeavam a encar-lo como sendo o filho que nunca tiveram.
 O que eu mais apreciava em seus pais era a sinceridade, a autenticidade. Entre vocs no havia fingimento, nem segredos inconfessveis. Toda vez que seu pai olhava para sua me notava-se amor nos olhos dele.  Quantas vezes Guilherme no desejou que o pai de Mary Hellen tambm fosse o seu?  Essa qualidade nos homens  muito rara hoje em dia.
 Eu sei disso. Pelo menos, em certos homens. Guilherme a fitou com ateno, perguntando-se se Mary Hellen se referia a si mesma. Ento, fez um gesto em direo a seu prato.
 Bem, j que voc no quer comer, gostaria de danar? Mary Hellen arregalou os olhos.
 Agora?!
Diante de tanto espanto, Guilherme achou graa.
 Bem, j que a banda est tocando, pensei em aproveitarmos.
Durante todos aqueles anos, Guilherme nunca a tirara para danar. No que Mary Hellen no sonhasse com os dois danando, agarradinhos, de rosto colado. Mas, naquele momento, no tinha certeza se conseguiria danar.
 Est me convidando para rodopiar pela pista com voc?
As sobrancelhas escuras arquearam-se, mas logo Guilherme sorriu.
 Ser que no estou falando em seu idioma?  perguntou ele, tornando a rir baixinho.
Mary Hellen meneou um pouco a cabea, para clarear o raciocnio, no para negar.
 Desculpe-me,  que  Parou um instante, reunindo coragem.
J que Guilherme gostava tanto de franqueza, ela decidiu dizer por que estava gaguejando, insegura feito uma adolescente.
 Voc pode imaginar quantas vezes j sonhei com ns dois danando?
Quando ele a fitou, havia uma expresso satisfeita e um sorriso triunfante em seu belo rosto.
 Srio?
Mary Hellen assentiu.
 Juro.
 Quando foi isso?
 No sei, Guilherme Quando ramos muito jovens. Quer que eu lhe diga inclusive as datas?
Ela estaria falando srio? Como ele no percebera?
 No  que eu no fazia idia  Mary Hellen o encarou.
 Voc no fazia idia de muitas coisas.
Aonde aquilo os levaria? Guilherme tentou imaginar. Ser que Mary Hellen se importava com ele muito mais do que se importaria com um amigo?
 Do qu, por exemplo?
 O modo como as garotas se sentiam a seu respeito.  Mary Hellen mordeu a lngua, mas ento deixou as palavras flurem: O modo como eu me sentia a seu respeito.
 Voc?!
 Eu.
Guilherme ainda no conseguia acreditar. Mary Hellen devia estar tentando dizer outra coisa. Nada a ver com paixo. S podia ser isso.
 E como voc se sentia?
Mary Hellen j havia alcanado o limite mximo do embarao. Muito nervosa, forou-se a parar de girar o copo de vinho entre os dedos.
 Ora, o que  isso? Voc convida uma garota para jantar, lhe oferece vinho e ento espera que ela confesse tudo o que lhe vai no ntimo?
Guilherme no queria que Mary Hellen pensasse que ele a estava sondando. Ela podia julgar que ele fazia isso por vaidade. Apesar da vontade que sentia de saber, preferiu recuar.
 Perdo, eu no pretendia
Mary Hellen afastou a cadeira para trs e deixou que ele a conduzisse  pista. No podia permitir que Guilherme adivinhasse, mas podia deixar tudo no passado, salvando a prpria pele.
 Est bem, acho que voc tem todo o direito de saber. E teria sabido, se tivesse prestado mais ateno. Tive uma paixo secreta por voc.
Paixo, Mary Hellen concluiu, era uma palavra mais segura do que amor, embora a ltima estivesse bem mais prxima da realidade.
E ainda era assim, seu corao avisou.
 Teve mesmo?  Era mais uma repetio atnita do que uma indagao.
Guilherme parecia espantadssimo. Mary Hellen no sabia se devia achar graa ou chorar.
 Tive.
Ele no sabia o que pensar, o que dizer.
 E era mesmo?
Mary Hellen no entendeu.
 Era mesmo o qu?
 Um segredo?
Ou ela teria contado a algum? Teria partilhado seus sentimentos com outra pessoa, fazendo-o parecer um idiota desnaturado que a ignorava? Deus, como ele queria ter sabido, ter tido algum vislumbre!
Guilherme estaria horrorizado com a possibilidade de ela t-lo embaraado falando sobre o que sentia com alguma amiga?
 Nunca disse a ningum sobre isso, se  o que deseja saber. Apenas escrevia em meu dirio.
 Voc tinha um?
Mais um detalhe que Guilherme ignorava sobre Mary Hellen. Quantos mais deixara passar?
 Tinha.  Mary Hellen mantivera um, quando garota, e mesmo depois, j mais velha.
Sem que compreendesse direito por que, parou de escrev-lo na vspera de seu casamento com Ethan. Olhando para o passado, perguntou-se se aquilo no fora um aviso que decidira ignorar.
 Eu precisava colocar meus sentimentos para fora, de qualquer maneira. Seno explodiria.
A conversa estava ficando sria e constrangedora. Guilherme fez uma tentativa para suaviz-la, pelo bem de ambos.
 Sempre acreditei que voc descarregasse seus problemas com Ethan, ou comigo, mas vejo que foi um erro pensar assim.
Ela o fitou por um longo momento.
 Voc esteve errado a maior parte do tempo, Guilherme. Quando ele iniciou a conversa com o que julgou ser uma pergunta inofensiva, no estava preparado para aquela enxurrada de revelaes. Mas no pde evitar continuar querendo saber mais:
 Prossiga.
Mary Hellen falaria at o ponto que achava poder. Mas no revelaria a parte mais importante.
 Voc errou deixando a cidade daquela maneira, no meio da recepo de meu enlace com Ethan. Margheritte cr que deve ter tido uma discusso sria com seu pai. Foi por esse motivo?
Guilherme no imaginava como Margheritte poderia opinar a respeito de sua vida. Mexericos, ele sups.
 No, naquela poca eu e meu pai nem sequer nos falvamos. Ele mal sabia que eu estava vivo. Acredito que, aps vrias semanas, nem sequer tenha notado que eu no morava mais em Storkville.
 Est bem. Ento voc no deixou a cidade por causa de seu pai. Por qu, ento?
Guilherme no queria falar sobre aquilo. No ainda. Talvez nunca. Fez um gesto com a cabea em direo  banda.
 A msica terminou.
Mas Mary Hellen permaneceu onde estava, olhando para ele.
 No vai me responder?
 E melhor deixar como est, Mary Hellen.  Colocando a mo em suas costas, impeliu-a de volta  mesa.  O assunto no  de sua conta.
Atnita e sem fala, Mary Hellen soltou uma exclamao irada ao tornar a sentar-se.
 Bem, eu creio que com isso voc me coloca em meu devido lugar!
A fala nunca fora seu melhor mtodo de comunicao, concluiu Guilherme.
 Ei, eu no pretendia
Preferindo no ouvir mais nada, Mary Hellen o interrompeu:
 No? Ento voc me diz que somos amigos e em seguida me acusa de ser intrometida? Existe alguma espcie de casta entre seus amigos que eu no tenha percebido?
Revelar-lhe a verdade poderia destruir toda a amizade que ela agora atirava em seu rosto.
 Mary Hellen
 Desculpe-me, eu s esperava que voc pudesse ser honesto comigo, mas talvez tenha esperado demais.  Uma torrente de emoes ameaava afog-la. Podia senti-la brotando dentro de si.  Mas se at mesmo Ethan no foi honesto comigo, por que voc deveria? Afinal, me deve menos do que ele.
A conversa rumava em uma direo que Guilherme no estava sendo capaz de seguir.
 Ethan? Como assim? No foi honesto com voc? Mary Hellen dissera e fizera aluso a muitas coisas.
Decerto por esse motivo estava sentindo as lgrimas ameaando cair. Queria poder sair dali antes que Guilherme as notasse. Pegou a bolsa e levantou-se.
 Foi uma noite adorvel, mas eu preciso ir. Antes que ele pudesse tomar alguma atitude, pronunciar uma nica frase, ela se afastou, apressada.
Guilherme a alcanou perto do estacionamento. No podia permitir que Mary Hellen se fosse assim, com tantas dvidas pairando entre os dois. Tomou-a pelo brao e a fez voltar-se.
 Aonde pensa que vai?
Ela tentou se desvencilhar, porm Guilherme segurou-a com mais firmeza.
 Para casa.
Os olhos dele se estreitaram.
 A p?
 Para que existem os txis? Para nos levar aonde queremos, no?
Guilherme exalou um suspiro.
 Pare com isso, Mary Hellen.
 Pare voc! Deixe de me tratar como se eu fosse uma imbecil!  Mary Hellen exigiu, por fim se soltando.  Por que no responde s perguntas que fao?
 Porque voc pode no gostar das respostas. Muito da raiva pde ser controlada. Ento, Mary Hellen suavizou o tom ao indagar:
 Por que no me permite decidir isso? Guilherme no podia arriscar. No podia destruir a nica coisa boa, decente que fizera parte de sua vida. Foi por isso que partiu, porque temia que o cime levasse a melhor sobre sua pessoa, se sobrepujando  amizade.
 Porque no seria justo com voc. J foi ruim o bastante
Mary Hellen esperou que ele continuasse, mas isso no se deu.
 O qu?
Guilherme apenas balanou a cabea. As confisses nem sempre eram boas para a alma.
 Oh, esquea
Ela sabia reconhecer a derrota, mas estava sendo difcil conter a frustrao.
 L est voc outra vez escondendo algo de mim.  assim desde que nos conhecemos, no?
Por que ela dizia aquilo? O que Mary Hellen sabia? Se havia algo a perturb-la, ele queria saber. Ningum era mais importante para Guilherme do que Mary Hellen.
 Do que est falando?  Guilherme notou que eles estavam sendo observados com muita curiosidade por um casal que acabava de chegar com o automvel.
Assim, pegou-a pelo pulso e se ps a caminhar, tranqilo, como se estivessem saindo para um passeio, e no resolvendo algo srio entre eles.
Mary Hellen procurou pelas palavras certas:
 E melhor no falar nada. Voc e Ethan eram amigos, e eu  No suportaria descobrir que Guilherme no achava nada errado na atitude de Ethan.
E se ficasse do lado dele? E se dissesse que todos os homens traam suas mulheres e que o melhor a fazer era se fingir de cega?
Guilherme estava mais perdido do que nunca, e mais determinado do que jamais estivera a descobrir tudo.
 Vamos, fale Mary Hellen. Quero saber Comece do incio.
Onde era o incio?, Mary Hellen pensou.
 No sei mais quando foi isso.
Haviam deixado o estacionamento e caminhavam pela rua, como costumavam fazer. S que a conversa nunca fora to sria.
 No posso me lembrar de quando tudo comeou. Ethan me traa.
Guilherme parou de caminhar e a encarou.
 Como assim?
 Meu marido se envolvia com outras mulheres. Traiu nossos votos!  gritou.
De tudo aquilo que Mary Hellen poderia ter dito, ele jamais teria adivinhado isso. Ethan era louco por Mary Hellen. Essa foi uma das razes que levaram Guilherme a se afastar, porque estava certo de que o amigo a amaria como merecia ser amada. Do modo como os pais dela se amavam.
Guilherme se sentiu muito mal, por causa dela e por tudo aquilo em que acreditava.
 Ethan se relacionava com outras garotas?  Guilherme ainda no conseguia crer.  Quando ele via essas mulheres?
Talvez fosse imaginao de Mary Hellen
 Quando ele no as via,  o que devia me perguntar. Eu gostaria que Ethan no visse nenhuma, pelo menos durante nossa lua-de-mel, mas no posso jurar que no o fez. Suponho que possa ter flertado uma ou duas por l. O Hava  cheio de belas jovens, e eu me mantinha muito ocupada tentando me acostumar  idia de que dali para a frente seramos ns dois apenas.
Mary Hellen olhou para ele de modo sugestivo, as luzes dos postes tornando visvel sua imensa melancolia.
Aquilo parecia irreal para Guilherme.
 Ethan? Ethan traindo voc?!
Por que Guilherme no aceitava. Ela, sim. Ele a culparia pelos erros do amigo? Julgaria que Mary Hellen o levara a agir de tal maneira? Ser que no fora bastante mulher para Ethan?
Mary Hellen no pde evitar o sarcasmo:
 Ethan me traa cada vez que respirava. Certa ocasio acabei descobrindo. Tentei fingir que no estava acontecendo, procurei ignorar e agir como a esposa perfeita, faz-lo feliz. Mas o que de fato o alegrava era a variedade.
Palavras no explicariam o quanto Guilherme lamentava por ela.
 Meu Deus! Mary Hellen, sinto muito
 Eu tambm. Sabia que quando Ethan morreu, naquele acidente, havia uma mulher com ele no carro? A desculpa que me dera  que viajaria a negcios. Tucker Malone tentou esconder isso de mim, mas acabei descobrindo.  Procurou afogar a mgoa o mais que pde.  A esposa  sempre a ltima a saber, mas cedo ou tarde acaba descobrindo.
Sem ter mais como dizer a Mary Hellen o quanto lamentava, sem imaginar como descrever o quanto estava surpreso, Guilherme se calou. Aproximou-se dela e a abraou. Abraou-a como amigo, e no como algum que a amou a vida inteira em silncio.
E agora se culpava por tudo o que sua adorada havia enfrentado. Que ironia! Querendo poup-la, acabou por atir-la nos braos daquele que a trairia e a faria sofrer.
 Estou molhando seu palet, Guilherme.
 No importa. Secar depois.
Guilherme tirou um leno do bolso e, com toda a delicadeza, secou seu pranto.
 Queria tanto que tivesse voltado para c!  Mary Hellen sussurrou.  Necessitei de tal forma ter algum com quem pudesse conversar! Se ao menos voc tivesse deixado um nmero de telefone, um endereo para que eu pudesse encontr-lo
Guilherme tornou a guardar o leno. Tomou a mo dela e recomeou a caminhar.
 Lamento muito, Mary Hellen.
Ela sabia disso. S queria ouvi-lo confessar.
 Venho tentando esquecer, e s vezes quase consigo. Eles voltaram ao estacionamento. Guilherme fez um gesto em direo ao restaurante.
 Quer voltar para l e terminar o jantar?
 Acha que ainda  possvel? J devem ter tirado a mesa.
 S h um meio de descobrir.  Guilherme estendeu a mo para ela.  Vamos?
Aps um segundo de hesitao, Mary Hellen aceitou o oferecimento dele.
Encontraram a mesa do modo que deixaram. Decerto os funcionrios julgaram que estivessem danando.
Aps terem se sentado, um garom aproximou-se e perguntou se desejam mais alguma coisa.
 Apenas a sobremesa. E Guilherme olhou para Mary Hellen.  A no ser que voc queira
 No, s a sobremesa. Mousse de chocolate, por favor  pediu ao rapaz e aguardou at que ele anotasse seu pedido e o de Guilherme, e se afastasse.  Voc ainda  louco por doce?
Guilherme sorriu. Quando criana, sempre desejou que a refeio comeasse pela sobremesa, e ento, se sobrasse lugar no estmago, faria as refeies. Como mdico, foi forado, pelo menos na teoria, a reverter essa preferncia.
 Os cookies de Margheritte no a convenceram disso? Ela lembrou-se do inesperado presente da tarde.
 J que tocou no assunto, as crianas adoraram t-lo na creche, lendo para elas. Eu havia me esquecido do quanto voc consegue ser paciente.
O garom retornou com uma fatia gigante de torta de chocolate com creme e o mousse de Mary Hellen. Guilherme arqueou uma sobrancelha.
 Como assim?
Mary Hellen ergueu a colher e comeou a comer.
 Falo sobre aquele semestre, quando voc tentou me ensinar matemtica.
 Oh, lgico De acordo com o que recordo, fui muito bem-sucedido.
 Mas apenas aps longas e dolorosas horas.  Talvez um pouco mais do que era necessrio. Mary Hellen aguardava aqueles momentos de estudo com ansiedade.  Ethan desistiu de tentar me ensinar, voc no.
 Eu via aquilo como um desafio. E voc precisava terminar o curso.
Na verdade, o que Mary Hellen precisava era dele. Aprendia os conceitos mais rpido do que demonstrava, mas adorava ter a dedicao dele, saber que Guilherme lhe dava duas horas de seu tempo, todos os dias, martelando clculos e teorias em seu crebro.
 Bem, graas a seu esforo, eu passei de ano.  Mary Hellen olhou para ele por sobre a colher, na dvida se devia ou no fazer a pergunta que no queria calar.
- Para onde foi quando nos deixou?
  Para Nova York.
 Nova York?  A vida na grande cidade era bem diferente da de Storkville.  Voc de fato queria se perder, hein?
 Queria me ocupar, isso sim. Um grande hospital de l havia me oferecido uma colocao. Ele nunca lhe dissera aquilo.
 Para ensinar?
Guilherme deu risada. Pelo visto, Mary Hellen tinha mais confiana em suas habilidades do que ele prprio.
 Mais para aprender. E aprendi bastante.
 Bem, podemos usar todo seu conhecimento aqui em Storkville. Est parecendo que logo teremos uma nova "fornada" de bebs. Pelo menos, um j est a caminho: o de minha prima Gwenyth.
 Ela pretende fixar residncia em Storkville?  Mary Hellen assentiu.
 Est determinada a ficar. Margheritte ajudou-a a encontrar uma casa para morar. Fica l para os lados do rancho de Ben Crowe. Prometi ajudar com a mudana neste fim de semana. No que ela tenha muita coisa para levar.
 Precisar de uma mo?
 Bem, auxlio nunca  demais. Guilherme assentiu.
 Pode contar comigo.
Ela sorriu as pupilas brilhando.
 Eu esperava que voc dissesse isso. Ele parou de comer a sobremesa.
 Amigos de novo?
 Nunca deixei de ser sua amiga, Guilherme. Mesmo quando julguei que voc no se importava mais comigo.
Guilherme acreditava nela. Aquilo o fez enredar-se ainda mais nos prprios sentimentos.
Guilherme no estava bem certo de como fora parar ali.
Em um minuto, chegava  creche, como de hbito, e no prximo, estava l sentado no cho, com uma tesoura na mo e em meio a todo aquele papel crepom.
Mary Hellen preparava a primeira festa de aniversrio que seria oferecida em seu estabelecimento, e era bvio que viria a ser seu maior evento.
Quando Guilherme chegou, aps o expediente no consultrio, de imediato foi levado  sala da frente. Julgou tratar-se de alguma emergncia, at dar com aquela decorao festiva.
Mary Hellen o colocou para trabalhar recortando duendes, uma quantidade interminvel deles, para serem colocados nas paredes.
Junto  mesinha, ele parou com o que fazia para olh-la, trabalhando ao lado, recortando dezenas de animais silvestres. O aniversariante, Mary Hellen informou, adorava animais.
Os cabelos loiros caam-lhe nas faces enquanto ela se concentrava, e mantinha-se os jogando para trs, apenas para que tornassem a lhe cair sobre os olhos.
 Eu havia me esquecido disso.
Mary Hellen lanou-lhe um rpido olhar. Ento se voltou para o que fazia.
 Do qu?
Guilherme achou graa. Inclinou-se e prendeu uma mecha atrs da orelha delicada de Mary Hellen.
 Do quanto voc fica empolgada com feriados e festas de aniversrios.
 Fico nada.  Ento, a honestidade a fez capitular:  Sim, no consigo resistir.
 Logo se v.  Guilherme terminou de recortar mais um duende. Tirou um instante para admirar o prprio trabalho antes de dar incio ao prximo.
 Mal posso esperar pelo Halloween. A ento lhe mostrarei o que  ter empolgao.
Guilherme apostava que sim.
 Ser que no est confundindo o Halloween com o Natal, minha amiga?
Ela riu. Para Mary Hellen, era tudo magia, e cada um dos feriados era cheio de mgica e de recordaes calorosas.
 Acredite em mim: nada poder ser confundido com o Natal.  Piscou, marota.  Talvez voc devesse ir se preparando.
Guilherme a fitou, tentando entender.
 Para o qu?
 Para o Natal. E para ficar completamente abalado.
Mary Hellen adorava o Natal, e todos os anos costumava ter a casa toda decorada desde o comeo do ms, mantendo a decorao at depois do ano-novo. Ethan costumava falar que ela exagerava, mas no fundo tambm apreciava.
Abalado Talvez fosse o termo correto, pensou Guilherme, tentando no deix-la notar que estava olhando para ela.
 Abalado fiquei na primeira vez que voc surgiu em minha vida.
Guilherme devia estar caoando dela, s podia ser isso.
 Freqentamos a mesma classe da pr-escola.
 Sim, eu sei.  Com todo o cuidado, completou os ps do duende.
Mary Hellen parou com sua tarefa.
 Como consegue se lembrar de coisas to antigas? Guilherme deu de ombros:
 Tenho uma excelente memria. Naquele primeiro dia de aula, voc chegou usando um vestido cor-de-rosa, com uma fita combinando nos cabelos. Recordo-me de t-la olhado e pensado que voc era mais doce do que algodo-doce.
Mary Hellen chegou  concluso de que ele estava mesmo caoando.
 Garotinhos de seis anos no pensam esse tipo de coisa, Guilherme.
 Como pode afirmar isso? Voc alguma vez foi um garotinho de seis anos?
 No
 Portanto, no queira saber o que eles pensam. Alm do mais, na poca, foi uma idia inofensiva.
 Na poca?
Ah! Ento havia diferena entre aquela ocasio e momento atual? Mary Hellen o fitou mais atenta.
 Devo concluir que agora no  inofensivo? Aquilo foi um lapso da parte dele. Guilherme gargalhou, admirando seu rpido raciocnio.
 Quem diria que voc  uma dona de creche? Faz perguntas como uma advogada em um interrogatrio.  Ele largou a tesoura.
Guilherme fez um bom trabalho, Mary Hellen notou, estudando a longa fila de duendes. Pegou mais trs rolos de papel crepom e entregou a ele.
 Gostaria que voc comeasse a prend-los na parede.  Ela apontou em torno da sala, deixando para Guilherme escolher onde coloc-los.
Ele fez um esgar.
 Espero que voc no queira que eu coloque na casa inteira.
Mary Hellen deu uma risadinha.
 Nada disso. Apenas aqui, onde as crianas ficam, e no corrimo. Ser suficiente. Amanh pela manh, pendurarei na parte de fachada.
Ela fazia tudo aquilo para alegrar o corao de Anthony. O menininho havia perdido a me naquele ano, e seu pai estava preocupado porque o filho teria de enfrentar o primeiro aniversrio sem a presena dela. Mary Hellen determinara-se a fazer o que podia para tornar seu sexto aniversrio uma feliz ocasio.
 Voc sabe, aniversrios no so exatamente um grande evento.  Guilherme torceu os trs rolos de papel. Dois deles caram de sua mo, comeando a desenrolar.
Mary Hellen parou para apanh-los. Rpido, comeou a enrolar um deles.
 Isso depende
 Do qu?
 De quem  o aniversariante.  Ps o rolo vermelho na mo dele e passou a enrolar o branco.
 Se fosse o meu aniversrio, no ia quer nenhum tipo de comemorao.
Ela o fitou.
 Ah, eu me lembro de que voc no gostava de comemorar esse dia.  Em seguida, sorriu.  Mas eu sempre o ignorava.
As palavras dela evocaram lembranas calorosas. Mary Hellen tinha o dom de faz-lo se sentir especial.
 Tem razo.  Observou ao redor, tentando imaginar como Mary Hellen poderia decorar a creche para o Halloween.  Pretende de fato comemorar o Dia das Bruxas?
 Pode apostar. Pretendo comear a decorao em meados de outubro
 Por qu, em nome de Deus?  perguntou, interrompendo-a.  Que eu saiba, no  scia da loja de departamentos local, nem precisa vender nada.
Ela o encarou, confusa. O que aquilo tinha a ver?
 No tenho nenhum interesse por negcios, Guilherme, mas por festividades.
Ele torceu o nariz.
 Halloween significa distribuir doces  garotada, tantos que os pequenos acabam ficando doentes. E algo que voc devia evitar.
 Essa agora ter de explicar, Guilherme Caldwell.
 Raciocine um pouco. O ano inteiro voc diz s crianas para no falar com estranhos, para no aceitar doces de ningum que no conheam. De repente, em uma certa noite do ano, o que lhes diz  que est bem, que podem sair por a chantageando gente e aceitando todos os quitutes de desconhecidos que possam carregar.
Mary Hellen arregalou os olhos, espantada.
 Voc disse "chantageando"?
 Isso mesmo.  Os dedos dele estavam manchados de vermelho e azul de tanto manusear o papel crepom. Limpou as mos na cala jeans.  Como mais chamaria sair por a assustando os outros para que lhes dem algo?
Algum tinha tirado toda a alegria e o divertimento do Guilherme que ela conhecia. Mary Hellen o estudou por um momento.
 Diga-me, Guilherme. O que a cidade grande fez com voc?
Ter vivido em Nova York tinha apenas piorado sua atitude. Foi o fato de ter vivido em uma casa sem alegria que forjou os sentimentos que nutria agora. Embora, durante uma poca, quando interagira com Mary Hellen e seus familiares, aquela atitude tivesse sido temporariamente contida.
 Ajudou-me a perder o resto de iluso que eu tinha.
Mary Hellen balanou a cabea e tirou os rolos de papel da mo dele.
 Quanto a suas iluses eu no sei, mas sem dvida sugou sua alma.
"No, nada disso. Minha alma eu deixei para trs, quando abandonei Storkville."
De repente Mary Hellen desejou fazer com que Guilherme sorrisse, pondo fim quela expresso sria em seu rosto.
 Ento  meu dever devolv-la a voc. Aqui.
Sem demora, Mary Hellen pegou um chocolate de dentro de uma redoma. Ento, quando ele comeou a protestar, ela o colocou em sua boca.
 Apenas uma coisinha para iniciar o processo de ado-lo um pouco.
Guilherme tirou o chocolate dos lbios.
 No preciso ser adoado. Os homens no tm necessidade disso.
 Quem disse que no?  Parou de trabalhar e olhou para o chocolate entre os dedos dele.  Coma, Guilherme. Est comeando a derreter.
Com uma pequena saudao, ele retornou o docinho  boca e o consumiu.
Ento gelou, quando Mary Hellen tomou-lhe a mo e comeou a lamber o chocolate derretido que sobrara.
 Aqui est. Agora voc no manchar tudo de marrom.  Quando Mary Hellen ergueu a vista, o riso desapareceu de seu rosto.
O que ela viu no semblante dele era puro desejo. O mesmo tipo que sentia forando as barras da restrio nela.
 Exceto talvez voc  ele murmurou, antes de beij-la com ardor.
Mary Hellen pde sentir o gosto do chocolate. Sentiu tambm o sabor da paixo misturada com lascvia. A volpia espalhou-se por seu corpo, como labaredas flamejantes. A decorao de papel que estivera montando caiu ao solo.
Foi a ltima coisa que registrou quando passou os braos em torno do pescoo de Guilherme, os pensamentos todos voltados para o homem, que, durante todos aqueles anos, ocupava sua mente e seu corao.
Guilherme aprofundou o beijo, abraou-a mais forte. Mary Hellen teria idia daquilo que fazia com ele? Alguma pista do quanto o enlouquecia, ficando perto dele, toda tentao?
 Julguei que estivssemos decorando a casa para o aniversrio de Anthony, no para o Dia dos Namorados  disse Margheritte, chegando com uma caixa cheia de enfeites, que colocou no tapete, perto da mesinha.
Com o rosto afogueado, passando a mo pelos cabelos, Mary Hellen lanou-lhe um olhar de advertncia.
 Margheritte
A amiga levou as mos ao rosto, como se querendo proteger os olhos.
 Perdo, as luzes aqui esto fortes demais para eu poder enxergar. Irei cuidar do jantar dos gmeos.
Os gmeos! Como pudera esquecer a hora do jantar deles?!
Desgostosa, Mary Hellen afastou-se de Guilherme e foi para a sala ao lado, de encontro ao cercado porttil onde os irmos brincavam.
 Eu devia estar cuidando deles.
Margheritte meneou a cabea, seguindo-a. Virou-se para trs, vendo Guilherme por sobre o ombro.
 Voc estava bastante ocupada, Mary Hellen. No que eu possa culp-la
Se suas faces ficasses mais rubras ela entraria em combusto, pensou Mary Hellen.
 Est bem, Margheritte, deixe os bebs comigo. Por que em vez disso voc no vai ajudar com a decorao?
Grato  chance de mudar de assunto, Guilherme juntou-se  Mary Hellen prximo do cercado. Observou Sammy e Steffie. No precisava examin-los, pois era bvio que estavam saudveis e se desenvolvendo muito bem.
 Eles esto se alimentando direito?
 Sim.  Mary Hellen inclinou-se para pegar Sammy. O garotinho sorriu quando ela o ergueu no colo.
 Como todos os bebs. A metade do que lhes  servido eles comem, e metade espalham por todos os lados.
Guilherme fingiu um olhar ctico.
 Como pediatra, devo participar da alimentao deles, pelo menos uma vez, para me certificar de que esto sendo bem tratados.
Naquele momento, ela queria apenas aproveitar sua companhia.
No havia como negar o quanto apreciava estar com Guilherme. Eles jamais conversaram sobre isso, pelo menos no de como Mary Hellen se sentia a seu respeito no presente momento.
Ela confessara apenas que tivera uma paixo por ele, um dia. Os dois, na certa, jamais falariam sobre o presente, mas tudo bem. Seria menos embaraoso.
Porm, isso no alterava nem um pouco os fatos. E a realidade era que ela o amava. E sempre amaria.
Se Guilherme fosse mais atento, j teria percebido isso. No entanto, era melhor assim, porque, se eles discutissem o assunto, se Mary Hellen dissesse as palavras, alto e bom som, Guilherme poderia se sentir compelido a dizer-lhe algo nobre, como por exemplo, que estava muito lisonjeado, mas
Mas. Que palavra mais desagradvel! Na certa ele a usaria. E Mary Hellen no podia garantir que estava preparada para ouvi-la. Ciente de que no seria capaz de lidar com isso, achava melhor deixar tudo como estava. Virando-se, entregou Sammy a Guilherme, e em seguida pegou Steffie.
 Est certo, mas no esquea que foi voc quem pediu.
Isso mesmo, ele pedira, pensou Guilherme, indo com ela para a cozinha, onde havia uma profuso de papel crepom.
Ele arregalou os olhos e virou-se para fit-la.
 Aqui tambm?
 Lgico. E por que no?  Mary Hellen acomodou Steffie no cadeiro e prendeu-a com o cinto.
Guilherme fez o mesmo com Sammy, colocando-o no cadeiro ao lado.
 Anthony pode vir aqui, e quero a casa toda com ar festivo. E o mnimo que posso fazer.
 O mnimo?
 Ele estar enfrentando isso sem a me pela primeira vez. Seu pai me falou que ela costumava programar grandes festas de aniversrio para o filho.  Deu de ombros.  Quero apenas que ele fique contente.
Ela de fato era nica.
 Voc quer que o mundo inteiro fique feliz, no ? Mary Hellen o encarou.
 Voc acha errado isso?
 No. De modo algum.  S que achava impossvel, ele acrescentou de si para consigo.
Mary Hellen aproximou-se do fogo para pegar as duas tigelas com a sopa dos gmeos que Margheritte deixara esquentando.
 S gostaria de ter mais tempo para ajeitar tudo ainda melhor, mas tenho estado to atarefada Percebeu que eu nem ao menos arrumei o sto?
Para Guilherme, o sto existia para se colocar coisas, no para se fazer arrumaes.
 Por que no tranca aquela porta e o esquece, por enquanto?
 At que no  m sugesto. H coisas antigas guardadas l que eu ainda no tive chance de verificar. Estou reservando isso para fazer com calma, com enorme prazer.
 Prazer?!  Guilherme no achava nem um pouco interessante mexer em objetos velhos e empoeirados.
 Sim, Guilherme. Tudo l deve estar cheio de boas lembranas.  Mary Hellen testou a temperatura da sopa. Satisfeita, levou as duas tigelas para a mesa.  Minha tia Jane tambm escrevia dirios.
Guilherme aceitou a colher que ela lhe estendeu antes de pegar uma das tigelas.
 Isso no seria invaso de privacidade?
 S se titia estivesse viva. Agora que se foi, seria como partilhar de fases importantes de sua existncia.
O modo como a mente dela funcionava o deixava pasmo. Guilherme balanou a cabea, antes de levar a colher cheia de sopa  boquinha de Sammy.
 Como eu j lhe falei, voc devia ser advogada. Steffie estava com apetite, Mary Hellen notou. Quase no dava tempo para ela tornar a encher a colher, e ela j queria mais.
 No sei Acho o trabalho com as crianas bastante compensador, alm de exaustivo.
Guilherme sorriu quando Sammy, por fim, aceitou ser alimentado por ele.
 Voc parece ter habilidade para isso. Parece orgulhar-se de manter o lugar funcionando to bem.
 Andou ouvindo comentrios sobre o que fao?
 Sim, ouvi. Das mes de algumas crianas de quem voc cuida.
Algumas delas desviaram-se de seu caminho para ir at Guilherme e dizer o quanto seus filhos pareciam felizes com a creche.
 No lhe pouparam elogios, sabia?
Mary Hellen ficou radiante. Era bom saber que seu esforo estava sendo recompensado.
 Srio?
 Ah. Mas deve saber que  muito competente.
 Evidente que sei Mas  sempre bom ouvir isso vindo dos outros. Graas a Deus, meu trabalho est fazendo diferena na vida dos cidados.
No era necessrio dizer. A Mary Hellen que Guilherme conhecia era brilhante o suficiente para intuir isso.
 S de ficar sabendo que eles podem deixar os filhos aos cuidados de algum em quem confiam tira um grande peso de seus ombros.
Mary Hellen limpou os lbios da garotinha com o guardanapo.
 , e transferem o peso para os meus. Guilherme achou graa.
 Do que est rindo?
 De nada.  que de repente me ocorreu a fantasia perfeita para voc.
Ela de imediato se interessou.
 Fantasia? Como assim?
Guilherme viu o alerta em seus olhos, e se deu conta da tolice que cometera tarde demais.
 Esquea.
 No tente mudar de assunto. Diga de uma vez.
 Bem, o hospital estar oferecendo uma festa de boas-vindas a carter para o novo diretor da equipe. Ser na semana que vem.
 Mesmo? E como voc ir fantasiado? Guilherme estava achando a coisa toda uma grande
tolice. No tinha tempo para esse tipo de coisa.
 Homem invisvel. Ela franziu o cenho.
 E voc ir?
Ele inclinou a cabea.
 O que acha?
 Acho que deve ir. No ir querer ofender o novo diretor, no ?
Guilherme no estava dando a menor importncia  chegada do homem, e encarava aquilo como algo banal. S esperava que ele no interferisse em sua relao com seus pacientes.
 O que no quero  me sentir feito um idiota. Mary Hellen deu uma risadinha.
 Voc no se sentir. Deixe comigo. Guilherme, suspirou.
 Tudo bem
Aquele, Guilherme concluiu, foi seu primeiro erro.



CAPTULO X


 Os piratas, em geral, no usam perna de pau, tapa-olho e andam sempre com um papagaio no ombro?
Nada confortvel, Guilherme saiu do quarto de hspedes onde fora colocado para vestir a fantasia que Mary Hellen lhe arrumara para ir  festa. Ponderava com seriedade sobre telefonar desculpando-se por no poder comparecer. Afinal, sua carreira de mdico no dependia daquilo.
Qualquer coisa seria melhor do que sair por a se sentindo to ridculo.
Foi ento que a viu, e tudo mudou da gua para o vinho. No havia se dado conta de que, enquanto se debatia com seus prprios valores e se fantasiava, Mary Hellen tambm colocava a dela.
Guilherme ficou de queixo cado ao fit-la, vendo como ficava linda naquela roupa de cigana. A saia era rodada em tons de bordo e dourado. A blusa branca franzida no decote seria at recatada se Mary Hellen no houvesse lhe baixado as mangas para expor os ombros alvos e insinuar a curva dos seios comprimidos pelo espartilho abaixo. Ele at mesmo andaria sobre brasas se fosse para v-la to bonita.
Guilherme no estava menos do que fantstico naqueles trajes de pirata. Mary Hellen soube que seria assim no momento em que viu as peas na loja. Combinava com ele bem mais do que a outra roupa, de guerreiro com sua armadura reluzente, que de incio a atraiu, e pensou levar at ver a outra.
Correu os olhos pelo corpo atltico para encontrar o rosto. No pde deixar de notar como a cala justa envolvia as coxas firmes, enfatizando sua masculinidade.
Um calor sbito invadiu seu corpo. Mary Hellen apertou os lbios para controlar a reao inesperada.
 No os meus piratas.  Prendendo o pandeiro sob o brao, Mary Hellen aproximou-se para ajustar a bainha da espada no quadril dele.  Eles possuem lindos olhos azuis e duas pernas, no apenas uma. E quanto ao papagaio, s serviria para atrapalhar quando largasse a espada para beijar a mulher que o marujo teria acabado de tirar das garras de outro corsrio.
Mary Hellen riu com ar travesso e acrescentou:
 Esse segundo pirata maldoso, sim, tinha uma perna de pau, tapa-olho e papagaio no ombro.
Guilherme se divertiu, mirando a si mesmo no espelho do corredor. Supunha que no estivesse assim to ridculo. Alm disso, comparecer quela festa parecia deixar Mary Hellen feliz.
 Est parecendo mais um filme de Hollywood do que algo sado da obra de Robert Louis Stevenson.
Mary Hellen fez um gesto de indiferena. Tentava no olhar muito, mas a camisa da fantasia estava aberta no peito, quase at a cintura, e a vista de onde ela estava era notvel.
 Bem, voc tem suas fantasias, e eu as minhas Guilherme a fitou atravs pelo espelho, perto dele.
 Ento  isso?  Guilherme virou-se para Mary Hellen, com um sorriso caloroso nos lbios.  Uma fantasia sua? Ir a uma comemorao no hospital com um homem usando cala justa, botas de salto e camisa com mangas largas o bastante para esconder trs ou quatro pacientes dentro dela?
 Exatamente.  Ergueu o queixo e o encarou.  E qual  a sua?
Os olhos azuis a percorrem. Com os braos e o pescoo cobertos por finas correntes de ouro, os cabelos dourados soltos e brilhantes em torno das faces delicadas, Mary Hellen de fato parecia ser uma cigana. Ele quase podia ouvi-la fazendo previses para o futuro.
 Chegar a uma festa no hospital acompanhado de uma linda cigana.
Em resposta, Mary Hellen levantou o pandeiro que segurava e o sacudiu no alto da cabea, com ritmo.
 Sendo assim, ser um prazer satisfaz-lo.  "Quem me dera que fosse verdade", pensou ele.
 Falando com franqueza, o que eu queria mesmo era arrancar esta roupa de cima de mim.
O sorriso dela se alargou.
 Cuidado, doutor! Lembre-se de que tem uma reputao para manter.
Quando Mary Hellen olhava para ele daquele jeito, Guilherme delirava. Fingir que ela no o afetava seria impossvel. Portanto, nem sequer tentou.
 Quando foi que voc se tornou assim to sensual, hein, Mary Hellen?
Ela fingiu inocncia. O decote de sua blusa escorregou, sedutor, mais um pouco. Quando Mary Hellen a colocou de volta no lugar, sua expresso registrou o quo satisfeita ficara. O elogio, aps anos de incertezas, fez-lhe um bem maior do que poderia imaginar.
 Talvez seja a lua cheia que desperte isso em mim. Guilherme abriu a porta e apontou para o cu.
 Aquela lua  crescente, no cheia.
Mary Hellen soltou uma deliciosa gargalhada.
 Precisa me ver quando ela fica cheia!
Guilherme resistiu  tentao de beij-la, sabendo que, se a beijasse, eles no sairiam to cedo por daquela casa. E na certa jamais chegariam ao hospital.
 Voc  incrvel. Sabia disso? Ele estava ganhando tempo.
Mary Hellen colocou ambas as mos em suas costas e o empurrou para fora.
 Vamos nos atrasar se continuarmos parados aqui com essa conversa mole.
 E da? Eu bem que preferia no ir.
Mary Hellen compreendia que a funo dele no hospital era importante e que existiam certas normas de protocolo a seguir, mesmo para um ex-rebelde indomvel como Guilherme Caldwell.
Assim, Mary Hellen desejou um ltimo "boa noite" a Margheritte, que mais uma vez se ofereceu para pernoitar, e que naquele momento dava banho nos bebs, e passou o brao pelo de Guilherme.
 Voc no vai querer ofender o novo diretor, no ? Alm disso, ser divertido.
Guilherme franziu as sobrancelhas.
 Essa no  minha definio de divertimento.
No entanto, por estranho que pudesse parecer, foi divertido.
Guilherme nunca deu importncia a festas. No tolerava ver dezenas de convidados circulando, com sorrisos automticos no semblantes, fingindo estar se divertindo, e com copos na mo sendo enchidos sem parar. Preferia lidar com as pessoas em bases de uma de cada vez. Por ele, aquele tipo de evento devia ser proibido. E as primeiras da lista seriam aquelas a carter.
No entanto, quase contra a vontade, estava se divertindo. Era interessante experimentar uma noite atravs dos olhos de Mary Hellen, que, no importando o quanto Guilherme resistisse, fazia com que apreciasse.
De certo modo era como se ele estivesse a v-la pela primeira vez. Todos pareciam gravitar em torno dela. Mary Hellen tinha brilho prprio, e demonstrava um interesse vido por tudo e por todos. Estar perto dela fazia com que tudo parecesse melhor, mais bonito. Inclusive seu prprio humor.
Guilherme a observou enquanto ela danava com o novo diretor. De repente sentiu uma pontada de cime do homem de cinqenta anos de idade, j meio calvo e vestido de Robin Hood. Mary Hellen dava risada de algo que ele acabava de dizer a seu ouvido.
Se que algum estivesse prestando ateno ao diretor saberia que estava apaixonado, decidiu Guilherme. Precisava dar um jeito naquilo.
Mas no naquela ocasio.
 Voc sem dvida sabe como se portar em uma comemorao. No sabia que era to socivel  Guilherme murmurou para Mary Hellen ao se aproximar dela.
As atenes do novo diretor foram desviadas para a enfermeira-chefe, vestida de duquesa. A mulher levou Robin Hood para longe, j quase sem flego.
Guilherme entregou a Mary Hellen uma taa com ponche.
Ela pegou a taa com ambas as mos e perguntou, antes de tomar um gole da bebida:
 Do que  que voc est falando?
 Para todos os lados que me viro, ouo algum comentar sobre sua pessoa.  Indicou o homem com quem ela acabava de danar.  O diretor acha que faria maravilhas sendo relaes-pblicas aqui do hospital. Est pensando em lhe oferecer o cargo.
Aquilo era uma lisonja, mas ela balanou a cabea.
 No estou interessada.
Guilherme bancou o advogado do diabo:
 Nunca se sabe. A oferta pode vir acompanhada de um pacote de benefcios bastante lucrativo, para no mencionar um salrio tentador.
 Obrigada, mas no preciso de um pacote de benefcios lucrativo. Sou nova ainda, e sozinha. E h coisas mais importantes do que dinheiro.  Ouviu a gargalhada de Guilherme ao tomar um gole de ponche.  O que foi? Do que est rindo?
 Voc teria sido uma revelao para meu pai. Ele achava que no mundo no havia nada mais importante do que dinheiro.
Mary Hellen puxou a manga da camisa de Guilherme at que a fitasse.
 Est brincando, no ? O sr. Caldwell no era assim to mercenrio.
 Quer apostar?  Guilherme resolveu afastar as lembranas do pai. No era hora para falar dele.  E ento? Pretende administrar a creche para sempre?
Mary Hellen terminou de tomar o ponche, mas continuou com a taa na mo. Talvez tivesse sido o lcool que a fez escutar aquilo, mas no gostou da implicao.
 Voc fala como se meu trabalho fosse insignificante. Guilherme no queria ofend-la, julgava apenas que suas metas eram simples demais.
 No  isso, Mary Hellen, apenas nada amplas.  Foi o que conseguiu dizer, na falta de termo mais adequado.
 Lidar com crianas, coloc-las no caminho do bem, dar a elas uma base slida, calorosa, no  algo grande o bastante para voc?
Guilherme recuou.
 Eu no disse isso.
 Foi o que entendi.  E parou de sorrir.
Por ser um copo de vinho ocasional a bebida mais forte que Mary Hellen tomava, o ponche causava um efeito nela mais forte do que deveria. Tarde demais para descobrir que o delicioso sabor de frutas escondia uma dose de vodca. Algo caloroso espalhou-se dentro dela em resposta ao olhar que Guilherme lhe lanou. Que era muito provocante
 Dance comigo, Guilherme.  Ergueu as mos para ele, esperando.  Faa com que eu me sinta to bonita como me fez sentir l em casa, antes de sairmos.
Guilherme, contente, tomou-a nos braos. Seria seguro abra-la ali, na frente de toda aquela gente. Ele no podia atrever-se a nenhuma atitude que os levasse a algo mais, estando ali. E se t-la nos braos fosse uma doce tortura, que fosse. Pelo menos estava a abra-la.
 No precisa que eu faa isso, Mary Hellen. Voc  bonita.  E ento mudou de idia.  No, na verdade no .
A msica tocando o fez lembrar dos bailes da escola.
 No sou?
 No, no . As flores do campo so bonitas.  Colou o rosto no dela.  As rosas so lindas. E voc, Mary Hellen Dawson Brady, definitivamente,  uma rosa.
Mary Hellen pde sentir os olhos arderem. Ningum jamais lhe dissera nada to bonito. Nem mesmo Ethan, quando tentava conquist-la.
 Desse jeito vai me fazer chorar, Guilherme.
Ela no estava brincando, Guilherme percebeu. Desejava ter um leno, mas no havia bolsos naquela droga de fantasia.
 Nem pense em fazer isso. H pelo menos umas quarenta pessoas perto de ns, e nem sei o que faro se a virem danando comigo e chorando.
O estratagema deu resultado, amenizando o clima. Mary Hellen achou graa.
 Oh, Guilherme, s voc mesmo para falar essas coisas
Ele sorriu, fitando-a nos olhos.
 Deve ser sua companhia que me faz ficar assim romntico.  Guilherme encostou o nariz em seus cabelos, apertou-a com mais fora e se entregou  sensao embriagadora de ter seu corao batendo junto ao dela.
A viagem de retorno para a manso deu a impresso de terminar antes mesmo de comear. Mary Hellen mal acabava de recostar a cabea no assento, de plpebras cerradas, quando teve de tornar a ergu-las. Haviam chegado.
Tentou no ser to bvia ao espreguiar-se e pegar a bolsa. Virou-se para Guilherme.
 Confesse: no ficou feliz por eu ter conseguido convenc-lo a ir ao evento.
 Acha que fiquei? Impresso sua?
 Ora, que mentiroso.
Guilherme suspirou e saiu do carro. Contornou o veculo para ir abrir-lhe a porta.
 Est bem Estou grato por ter me convencido. Fiquei contente por ter ido, mas apenas porque voc tambm estava l.
 timo. Foi perfeito, sabia?  Pegando a mo dele, Mary Hellen permitiu que a ajudasse a sair. Ps-se em p e, por um instante, permaneceu onde estava.  Sobretudo com uma mulher que mal consegue sentir as pernas.
 Ser que danamos tanto assim? Ela fez que no.
 Voc nunca dana demais. Acho que bebi muito ponche.
Surpreso, Guilherme a encarou, incrdulo. At ento assumira que Mary Hellen estivesse apenas cansada.
 Duas taas de ponche, antes do jantar durante toda a noite, no pode ser considerado exagero.
Mary Hellen apontou para os degraus da entrada.
 Ento por que aquela escada de repente parece ser mais alta?
Guilherme olhou naquela direo e deixou escapar uma deliciosa gargalhada.
 Talvez seja a luminosidade.  Ento, na certa, devido ao clima festivo e s fantasias que usavam, ele cedeu a um impulso.  Mas vou dizer-lhe uma coisa: h uma soluo simples e perfeita para seu problema.
 Srio? E qual seria?  Fitou-o, tentando ignorar o zunido em seu crebro.
 Esta.
No prximo instante, Mary Hellen se viu sendo erguida no ar pelos braos musculosos. Fortes emoes a percorreram antes que pensasse em protestar.
 Espere! Voc vai machucar as costas!
 Est duvidando de minha fora? Tentando ferir meu ego?
 Jamais!  Mary Hellen, ento, acomodou-se, rodeando os braos no pescoo dele. Exalou um suspiro satisfeito, ao ser carregada escada acima.
 timo, Mary Hellen, porque qualquer garoto de dez anos conseguiria carreg-la. Tenho um peso de papel mais pesado que voc.
 Deve ter mesmo uma grande papelada sobre sua mesa  disse ela, o hlito morno contra o trax largo, onde recostava a tmpora.
Fechou os olhos absorvendo a deliciosa sensao de estar no colo dele, sendo conduzida com todo o cuidado at a porta da frente. Tornando a suspirar, aguardou que Guilherme a colocasse no cho.
Porm, ele no fez isso. Ela ergueu as plpebras e o encarou.
 O que foi?
Guilherme queria t-la consigo um pouquinho mais.
 Nada. S estava pensando
 Em qu?
Se Guilherme falasse, a magia acabaria. Talvez Mary Hellen se aborrecesse com ele. Mas no a condenaria, se assim fosse.
 Em coisas que no devia.
 Talvez no devesse mesmo pensar.  Mary Hellen foi posta no cho. Sentindo-se muito confiante, tirou o chaveiro da bolsa.  Em vez disso, poderia fazer algo a respeito.
A chave que Guilherme tomou dela quase escorregou de sua mo ao ouvi-la verbalizar o desejo dele. Guilherme deu-lhe as costas para abrir a porta.
 No sabe o que est dizendo, mocinha.  Aps destrancar a fechadura, afastou-se para que ela o precedesse.
 Sei, sim, pode acreditar.
Mary Hellen adentrou o vestbulo. Ali havia apenas uma lmpada acesa, lanando uma luz suave sobre o tapete oriental. Sua pulsao acelerou.
 No tomei tanto ponche, se  isso o que voc est querendo insinuar.
Quando ela o fitava daquele jeito ele se sentia perdido, jogado a seus ps.
 Estava pensando no quanto te quero, Mary Hellen, e que no devia querer.
 Por qu? E to terrvel assim?
 Sim, .  Estava perdendo a batalha contra a honra e a decncia.  No, no .
Mary Hellen respirou fundo, desejando que Guilherme fizesse amor com ela, naquele exato instante, e colocasse um fim  angstia em sua alma.
 No gostei de saber que para voc eu sou algo terrvel. Acreditei ser uma coisa boa.
 Isso no  um jogo, Mary Hellen.
Ela nunca imaginou que fosse, nem por um segundo. Procurou no rosto dele por uma pista daquilo que Guilherme pensava.
 No, mas sempre haver vencedores e perdedores, no ?
 Sim,  isso mesmo.  Guilherme tomou o rosto dela com as mos em concha, desejando-a mais do que tudo na face da terra.  E no haver de ser voc a perdedora.
E no seria, se eles fizessem amor. No se Mary Hellen pudesse sentir, pelo menos uma vez, que Guilherme lhe pertencia. Havia muito tempo ela era dele.
Pondo-se na ponta dos ps, Mary Hellen encerrou a batalha ntima que Guilherme travava, beijando-o com paixo.
No instante em que ela fez aquilo, Guilherme a puxou contra si como um faminto, desencadeando emoes indomveis que batiam suas asas com todo o desespero dentro dele.
Seus joelhos ameaaram ceder. Mary Hellen tomou alento, enchendo os pulmes com o ar frio da noite. Sentiu um fogo nascendo na boca do estmago, crescendo, sufocando-a, transformando-se em chamas que ameaavam consumi-la.
Mais do que tudo, Guilherme queria fazer amor com Mary Hellen. T-la, torn-la sua de uma vez por todas, como j a tivera na mente centenas de vezes, no milhares.
Mas naquele momento existia algo nela, em seu olhar
Ali, sob a tnue luz do vestbulo, Guilherme sentiu que se perdia no sabor de seus lbios, na doura de seu hlito, na suavidade de suas curvas moldadas a ele.
A beijou vezes sem-fim, o sangue correndo rpido nas veias, a cabea girando.
Acariciando as formas que o tentaram sem trguas durante todos aqueles anos, lutou para no arrancar-lhe as roupas, ali e sem demora. Queria que aquela noite fosse memorvel para Mary Hellen acima de tudo, pretendia lhe dar prazer.
O som de um inesperado choro infantil os fez se separar num salto.
Tentando recuperar o flego, Mary Hellen ajeitou os cabelos e os prendeu atrs das orelhas. Eles no estavam sozinhos.
Os gmeos! Como Mary Hellen pde esquecer?!



CAPTULO XI


Dar-se conta daquilo que ela quase se permitiu a abalou. Esqueceu por completo de si mesma, de suas obrigaes, e estivera prestes a render-se  paixo e ao desejo que vinham sendo sua companhia diria por anos e anos.
 Ʌ  melhor dizer a Margheritte que ela pode ir para casa.
 Acho que eu devia fazer o mesmo  Guilherme murmurou.
Por que ele esquecia de tudo quando estava com aquela mulher? Por que sempre, estando com Mary Hellen, colocava-se em situaes que o faziam ansiar por dar as costas a tudo que sabia que no poderia?
Incapaz de responder s prprias questes, Guilherme se aproximou da porta.
Aquilo no devia terminar assim. Mary Hellen no queria que Guilherme pensasse que o estava rejeitando, ou quilo que quase aconteceu entre eles. O que rejeitava era a ocasio. Apoiou-se no corrimo.
 Posso lhe oferecer uma xcara de caf?  Guilherme fez que no. Encontrava-se em mais perigo do que podia imaginar. Resistir a Mary Hellen se tornava cada vez mais complicado.
Dessa vez os bebs os salvaram. Na prxima, podia no haver ningum. Em outra ocasio Guilherme poderia se render e fazer amor com Mary Hellen. E acabar preso na armadilha tentadora onde no deveria jamais entrar. Guilherme suspirou. Estando com Mary Hellen parecia impossvel agir do jeito certo. Talvez ento, uma voz sussurrou dentro dele, no devesse se aproximar dela.
 Caf seria muito bom, mas me manteria acordado, e est ficando tarde.  Ele ps a mo na maaneta.  E terei de estar cedo no hospital.
Aquilo era mentira, mas era o melhor que podia fazer. No estava acostumado a mentir, menos ainda para ela.
Mary Hellen o estudou, em silncio. Guilherme mentia. Podia sentir isso, embora no entendesse por qu. Ser que ela significava to pouco? Ele recuava sempre, no ltimo momento, como se tivesse pensado melhor naquilo que estava para realizar. Como se de repente achasse que estaria cometendo uma grande estupidez.
Essa constatao a magoou. Mary Hellen deixou o pensamento de lado, mas o sentimento permaneceu. No fora mulher bastante para impedir que Ethan procurasse outras companhias que lhe dessem prazer. Aconteceria o mesmo com Guilherme?
Ele no a acharia atraente o bastante para tentar pelo menos faz-la mudar de idia, convencendo-a a irem para a cama? Se um dos bebs no tivesse chorado, se Margheritte no estivesse ali, de qualquer modo no teria ficado embaraada? No pelo que ela queria fazer, mas pelo que Guilherme no queria?
 No pretendo interferir em seus horrios.  De repente, Mary Hellen notou que Guilherme ainda usava a fantasia que alugara para ele.  Ah! Preciso devolver essa roupa amanh. Pode traz-la, assim que der?  acrescentou, temendo que ele pudesse achar que ela via sua presena na creche como certa.
Guilherme observou a si mesmo. Como um homem podia esquecer que estava usando uma camisa de mangas bufantes e aquela cala justa? A no ser, lgico, que o felizardo tivesse acabado de beijar Mary Hellen.
No havia sentido em voltar para casa fantasiado, quando suas roupas estavam ali. Desse modo, comeou a tirar a camisa, dirigindo-se ao quarto de hspedes com a inteno de se trocar.
 No, pode deixar. J que minhas roupas esto no quarto de hspedes, irei busc-las, e deixo a fantasia aqui.
Um movimento no alto da escada os fez olhar naquela direo. Era Margheritte, que lhes acenou.
 Perdo, eu no pretendia interromper.
No precisava ser muito observador para saber o que ela estava pensando.
 Voc no interrompeu nada  disse Mary Hellen, ansiosa para esclarecer o mal-entendido.  No  nada do que est imaginando.
 Ora! Nada me passou pela imaginao, anjinho, exceto que eu poderia levar os gmeos para minha casa. Direi a Gwenyth para vir tambm, dando chance a vocs para ficarem a ss.
 Margheritte! Mas o que  isso?! Margheritte olhou para ela com visvel impacincia.
 Se eu tivesse dito "fazer amor", na certa voc no iria gostar. Falando com sinceridade, Mary Hellen, j tem idade suficiente para ir para a cama com quem bem entender, certo?
Lanou um olhar significativo para Guilherme, que, de sua parte, no sabia se ria ou se se solidarizava com Mary Hellen, pelo constrangimento por que passava.
 No estvamos fazendo nada, Margheritte, nem pretendamos fazer  Mary Hellen insistiu.  Guilherme ia apenas trocar-se no quarto de hspedes, para que eu amanh possa devolver a fantasia  loja de aluguel de roupas, junto com a minha.
Observando ambos, Margheritte confirmou a explicao. Balanou a cabea, desapontada, ao descer a escadaria.
 No sei o que acontece com essa gerao. Se todos forem como vocs dois, o Conselho Municipal ter de tornar a mudar o nome Storkville, que deixar de ser a cidade da cegonha e se tornar a cidade do enfado.
Exausta, aborrecida e sem saber como lidar com as prprias emoes, Mary Hellen a beijou no rosto quando Margheritte se aproximou.
 Agradeo, querida, mais uma vez, por sua gentileza por ficar com os gmeos, mas ns poderamos passar muito bem sem esse comentrio.

A mulher no o viu se aproximar, to distrada estava com as prprias conjecturas. No notou o homem chegar perto at que fosse tarde demais.
Um grito estridente escapou de sua garganta, quando ele pulou sobe ela e a golpeou.
O sujeito no tinha rosto.
Havia alguma coisa preta em sua cabea, escondendo-lhe as feies, impedindo-a de v-lo. Julgou ter visto dois olhos escuros mergulhados nos dela, mas no poderia afirmar. Podia ser seu pnico dominando-lhe os sentidos.
E ento uma dor intensa em sua cabea pareceu ter apagado tudo o que existia a seu redor.
 Voc pode me ouvir?  insistia algum.
Ela sentiu algum dando tapinhas em sua mo e fez fora para erguer as plpebras. Quando conseguiu, deparou com o rosto de uma mulher que nunca vira antes. Era de meia-idade, com cabelos curtos e um sorriso gentil. Suas pupilas brilhavam com intensidade ao examinar suas feies.
 Como se sente, meu bem?
Segurando com firmeza a mo da estranha, ela tentou erguer o corpo. O mundo em volta se recusava a entrar em foco.
 No sei dizer  respondeu, confusa.
Lutavam contra o medo e a confuso, enquanto tentava clarear o raciocnio.
E descobriu que nada havia em sua mente para clarear.
O terror superou a dor.
Olhou para a mulher com olhos arregalados.
 Onde estou?
 Em Storkville, anjinho. Algum a atacou, bateu em voc com algum objeto, roubou sua bolsa e a sacola que carregava. Vi tudo, mas no pude impedir.  Suspirou.  Nem ao menos vi quem foi. O bandido usava uma espcie de meia enfiada na cabea, como nos filmes sobre ladres de banco. Deus do cu, nunca havia acontecido nada parecido em Storkville.
 Storkville?
O nome nada significava. E todos os detalhes que a desconhecida recitou-lhe no lhe suscitaram nenhuma recordao. No se lembrava de ningum a atac-la, nem bater em sua cabea. E muito menos de ter tirando sua bolsa.
 Sim, Storkville, Nebraska. A cidade mais frtil da unio.  A mulher sorriu por um instante, mas tornou a ficar sria.  No moro longe daqui Sa de casa apenas para um passeio. Irei lev-la comigo e lhe servirei uma boa xcara de ch. A no ser que tenha reservas em algum hotel.
 No, no tenho.  Pelo menos, achava que no tinha.
 Acredita que consegue caminhar, Emma?
A jovem olhou para a mulher. Elas se conheciam? Ela seria sua amiga, uma parente?
 Por que est me chamando de Emma? Perplexa, a estranha tocou algo na base de seu pescoo.
A moa olhou naquela direo. Em seu pescoo havia uma corrente de ouro com um medalho oval.
 E o que est gravado a. Emma.  assim que se chama, no ?
A garota fitou-a, atnita,  beira de um colapso nervoso.
 No sei
 Confesso que no tenho visto tanto alvoroo por aqui desde No consigo me lembrar de quando.
Adentrando o consultrio de Guilherme, Margheritte puxou a cadeira diante da mesa e sentou-se.
 Obrigada por me receber. Eu lhe trouxe isto.  Pegou uma pequena embalagem com cookies da bolsa e a colocou sobre a mesa.  Ainda esto quentes. Sei o quanto os adora.
Guilherme sentiu-se como se um rolo compressor tivesse passado por cima dele. Aquela era a primeira vez que via Margheritte desde a noite da festa no hospital, quando ele e Mary Hellen quase fizeram amor. Tomara uma deciso a caminho de casa, naquela ocasio. Estava vendo Mary Hellen muito amide, e, pelo bem de ambos, devia parar com aquilo.
Ningum teria ficado mais surpreso do que Guilherme com a visita de Margheritte. Tentou adivinhar se aquilo teria algo a ver com Mary Hellen.
Guilherme indicou os doces.
 No devia ter tido o trabalho, Margheritte.
 No  trabalho algum, tolinho. Gosto de cozinhar. E tambm de saber o que est acontecendo.  por isso que estou detestando Tucker Malone neste momento. O delegado no me conta nada. Mas aquele rapaz tem milhares de informaes, tentando encontrar os pais dos gmeos, e agora tambm anda atrs do assaltante. E no tenho sido de grande ajuda para ele.
Guilherme tinha ouvido algo sobre aquele assalto. Era difcil viver em um lugar como Storkville e no ficar a par dos acontecimentos. O incidente se tornou o comentrio principal por todo canto. A pobre moa, vtima do assaltante, estava com amnsia temporria e, at agora, no dava indicao de cura.
 Voc deu a ele uma descrio do bandido  Guilherme apontou.
Margheritte bufou.
 No muito boa. Era um homem de estatura mediana, nem gordo nem magro, e estava com uma meia de nilon na cabea.
 No so muitos os que ficam circulando por a com uma meia de nilon na cabea.  Ento Guilherme se recostou para trs na cadeira, estudando o rosto de Margheritte.  Mas voc no veio at aqui para falar sobre isso
Margheritte evitou encar-lo.
  verdade. Eu queria lhe pedir um conselho E sobre minha neta.
Guilherme estava ciente de que Margheritte tinha vrios netos.
 Que idade tem ela?
Margheritte fez um leve aceno com a mo.
  jovem.  Olhou-o fixo.   sobre o corao dela, Guilherme. No est nada bem.
Ele pensou um pouco, tentando recordar o nome do cardiologista do hospital.
 O dr. Campbell  um excelente profissional. Talvez devesse falar com ele.
Margheritte franziu as sobrancelhas.
 No  a esse tipo de mal que me refiro.
 Ah, no?
 Ela est amando algum desesperadamente.
Se era esse o caso, Guilherme no entendia por que Margheritte viera procur-lo.
 A garota lhe disse isso? Margheritte deu de ombros.
 Certas coisas voc apenas sabe. De qualquer modo, ela est amando um homem maravilhoso, mas por alguma razo eles no se acertam. Acho que o bobinho no est captando a mensagem.
Era bvio que no estavam falando sobre dois adolescentes. Em qualquer um dos casos, no era de sua conta.
 Talvez ele no a ame.
 Oh, sim, sei que a ama. Mas o problema  que o moo no se relaciona bem com a famlia. No com o pai, pelo menos. Creio que ele acha que no sabe como manter um relacionamento com uma mulher. Enquanto isso, ela minha neta, a pobrezinha, sofre em silncio. O que imagina que eu possa fazer para ajud-los?
Est certo. O assunto era sobre ele. Aquilo era bem coisa de Margheritte. Guilherme duvidava que Mary Hellen soubesse que ela viera procur-lo. Ficaria roxa de vergonha se soubesse.
 Nada. No h nada que possa fazer para ajudar, Margheritte. Lembre-se: voc pode no ter todos os fatos  disposio.
Ela conhecia um fujo quando via um. E por alguma razo Guilherme estava fugindo, deixando para trs a melhor parte de sua vida.
 Bem, bem Devo me conformar com tudo isso.
 Deve, sim.
Margheritte continuava fingindo que ambos no estavam cientes de que ela no se referia a nenhuma de suas netas, mas a Mary Hellen.
 Sei que o pai do jovem foi um homem difcil, mas isso nada tem a ver. No existe outro motivo para ele agir como est agindo. A questo  que o cabea-dura pensa que sim.
O fato de ela ter acertado na mosca o surpreendeu.
Mas o assunto lhe era doloroso, e Guilherme no gostava de discuti-lo. Sabia muito bem que as atitudes de seu pai no eram nenhum segredo em Storkville, mas isso no tornava a conversa mais fcil de se discutir.
Com um movimento brusco, Guilherme fechou a embalagem com os cookies que ela abrira.
 Pode ser que ele esteja certo.  Margheritte fez um esgar.
 Se fosse esse o caso, ento cada filho de cada criminoso seria um criminoso. No acredita que isso seja verdade, no ?
  diferente.
 S se voc quiser acreditar que .  Margheritte meneou a cabea.  No estou me referindo a minha neta.
Guilherme achou graa.
 Jamais pensei que estivesse.
 Mary Hellen te ama, e voc tambm a ama.  Com a pacincia esgotada, Guilherme se levantou. J ouvira o suficiente.
 Margheritte, estou sem tempo para argumentar com voc, ou para dizer o quanto est equivocada. Tenho um paciente a minha espera.
 Poder argumentar o quanto quiser, mas no conseguir mudar as coisas, doutor. J leu um poema chamado Evangeline?
 No.
 Bem, eu sim. E voc devia l-lo tambm.  Margheritte pde notar que a irritao dele crescia a cada segundos  Ora, no importa. A questo : havia dois jovens, loucos um pelo outro. Estavam para se casar quando de repente algo aconteceu, e acabaram se separando. Pelo resto da vida, procuraram-se, sentindo demais a falta um do outro. Em certas ocasies, chegaram a estar bem prximos, mas procuravam na direo errada. Lendo esse poema, desejei gritar: "Olhe no lado certo seu idiota, antes que seja tarde! Ela est bem ali!" Margheritte fitou-o com extrema piedade.
 Evidente que eu no podia fazer nada. Mas agora posso.  Levantou-se com uma postura majestosa. Em seguida, tornou a encar-lo.  Olhe para ela, Guilherme, antes que seja tarde.
Em seguida, deu-lhe as costas, caminhou em direo  porta e de l se virou.
 Bem, eu fiz minha parte. Cabe a voc fazer a sua.


CAPTULO XII


Mary Hellen tentou ser paciente e esperar, mas, quando soube que Guilherme estava deixando Storkvle, resolveu que j esperara demais.
No final do dia, pediu a Margheritte que ficasse com os gmeos e dirigiu-se ao consultrio dele.
Karen, a secretria, olhou-a espantada. Espantou-se ainda mais quando a viu sem os gmeos.
 Guilherme est no consultrio, Karen?
 Sim, est.
 Sozinho?
 , mas
Era tudo de que precisava saber.
 timo!  Mary Hellen passou pela secretria e entrou na sala.
Guilherme no ergueu a cabea de imediato, assumindo ser Karen quem entrara para dizer-lhe boa-noite antes de ir para casa.
  verdade, Guilherme?
Levou um susto ao ouvir a voz de Mary Hellen. Levantou a cabea. Algo lhe dizia que ela viria exigir explicaes. Ainda assim, fingiu no saber do que se tratava, tentando ganhar tempo para se recobrar.
 Mary Hellen? O que est fazendo aqui? Ela o ignorou.
  isso mesmo? Est indo embora de novo?
 Sim. Irei logo que encontrar algum que me substitua. Guilherme no queria que Mary Hellen soubesse antes que tudo estivesse finalizado. Seria terrvel v-la fitando-o com aqueles olhos maravilhosos, que tinham o dom de reduzir sua determinao a p.
 Como descobriu?
 Rebecca comentou com Margheritte, e ela me falou.  Mary Hellen estava prestes a explodir, embora procurasse se conter.  Porm, que diferena faz, no ? O que importa  que no foi voc quem me disse. No pretendia me contar, Guilherme? Igual da outra vez
Por que fazer o que era certo o deixava to mal?
 Eu pretendia avis-la, de algum modo.
 Quando? Aps uma semana? Um ms? Um ano? Cheguei  concluso de que desaparecer  bem seu estilo. Estou surpresa por voc ter ficado at agora.
Guilherme quis ir at ela, abra-la, dizer que a partida no era sua escolha, embora fosse necessrio.
Entretanto, permaneceu onde estava, porque tocando-a estaria negando tudo aquilo. Faria-o ficar, quando devia partir.
 Ser melhor para todos, Mary Hellen.
 Para todos quem? Decerto no ser melhor para as crianas, que precisam de um pediatra competente. E tambm no ser para mim. Eu nunca quis que voc se fosse.
Guilherme se sentia exausto. Amaldioou o prprio pai por tudo aquilo.
 Estou fazendo isso por sua causa.  Mary Hellen o encarou, atnita.
 Por minha causa?! Como assim? Eu pedi para que voc fosse embora, por acaso?  De repente, percebeu que gritava, e baixou o tom.
Ao contrrio, tudo o que Mary Hellen pedia era para que Guilherme ficasse. Mas isso no mudava o fato de que ele no podia permanecer ali.
 Ser melhor assim, Mary Hellen. Confie em mim.
 Duvido que eu possa. Estava comeando a confiar, e mais uma vez voc me decepcionou.
Por que ela tornava as coisas to mais duras? Ser que no sabia como ele se sentia, o que nutria por ela? Que sempre a adorou?
 Voc no me ouviu? Estou fazendo isso pelo seu bem.
Guilherme a insultava com aquela mentira. Mary Hellen cerrou os punhos.
 Por favor, me poupe!
Guilherme se levantou. Inclinou-se sobre a mesa, at ficar com o rosto a poucos centmetros do dela.
 Estou indo embora, porque, se ficar, acabarei cometendo uma grande estupidez.
Ela tambm se ergueu.
 Qual, Guilherme? Fazer amor comigo?  isso o que considera uma estupidez? Ou ser que tem medo de que de repente
Mary Hellen pensou em Ethan. Ela o decepcionara como mulher, e por isso ele procurara prazer fora de casa. No havia outra explicao.
 Suas nobres intenes esto misturadas com desapontamento  por isso que est fugindo?
 O qu? O que quer dizer?
 Que est fugindo de mim!
O quanto Guilherme poderia falar sem revelar-lhe tudo? Mary Hellen precisava entender que a escolha no era dele.
 Entenda uma coisa, Mary Hellen. Estou me afastando porque no consigo parar de pensar em voc, porque a desejo toda vez que estamos juntos, porque quero faz-la minha mulher.
No. De fato, no estava dando para entender.  E acha que isso  to repulsivo?  Mary Hellen fazia fora para no chorar.
Guilherme comeou a caminhar de um lado para o outro.
 Ser que no compreende? No posso cometer essa injustia com voc.
 Agora me deixou completamente perdida. Que injustia  essa, afinal?
A voz dele demonstrava puro desespero:
 A de casar com voc!
 Continuo no escuro.
 No quero mago-la.
 E acha no me magoar se me virar as costas e for para bem longe daqui?
Guilherme meneou a cabea.
 No tanto quanto a feriria me casando com voc.
 Guilherme, do que  que est falando? Por que me magoaria casando comigo? Por acaso vira lobisomem nas noites de lua cheia? Prometo que no usarei balas de prata contra voc.
 E bem pior do que isso. Agora ele s podia estar brincando.
 Do que se trata?  ela quis saber.  O que poderia ser pior do que se transformar em lobisomem?
Virando-se, Guilherme resolveu pr um fim a tudo aquilo:
 Eu poderia me transformar em meu pai.
Mary Hellen se ps o olhar para as costas dele, esperando que se virasse. Como ele no se moveu, ela aproximou-se e o fez voltar-se.
 O que foi que disse?
 Meu pai, Mary Hellen. Guilherme Caldwell, um homem que se dedicou a conquistar garotas. Qualquer uma que encontrasse e que fosse mais ou menos atraente. Isso destroou o corao daquela cujos ps ele deveria beijar.
Mary Hellen se lembrou do que Margheritte dissera, mas no pde entender a conexo entre pai e filho, alm do sangue. Eles eram opostos. No entanto, Guilherme parecia crer no contrrio.
 Est falando srio, Guilherme? Est deixando a cidade, me deixando, por achar que acabar virando um canalha?  Aquilo no fazia sentido.
 No um canalha, mas meu pai.  Ele riu com suavidade.  Embora os dois sejam sinnimos.
 Por Deus, Guilherme, ento  por isso  Sentou-se, afundando na poltrona.   o que pensa mesmo? Que aps uma vida sendo digno e decente acabar mudando seu modo de proceder?
As peas do quebra-cabea comeavam a se encaixar.
 E eu pensando que Guilherme a fitou.
 Pensando o que?
 Que voc havia me empurrado para os braos de Ethan porque no me queria.
Ele gargalhou por ouvir tamanho absurdo.
 Fiz o que fiz justamente por quer-la tanto. Julgava que Ethan poderia ser para voc tudo aquilo que eu jamais seria.
E aquela era a grande ironia.
 E foi. Tudo aquilo que voc jamais seria.
 Como pode estar to certa disso?
Uma grande compaixo por Guilherme tomou-lhe o corao por tudo o que sofreu. E raiva por tudo o que ele os fez sofrer.
 Porque, pelo visto, eu o conheo mais do que voc se conhece. Acha que isso  gentico? Tolice.  Mary Hellen no conseguia conter a ira, mesmo fazendo tamanho esforo. Tanto tempo perdido, tantos desentendimentos por nada!  Ser um conquistador barato  o estilo de Ethan e de seu pai. No o seu.
Os olhos de Guilherme diziam a ela que ele ainda no se convencera disso.
 Observe-se, veja a vida que leva. Tudo o que seu pai foi voc no , alm de ser bonito e rico. Seu pai era hostil, e voc, gentil.  Apontou o dedo para o peito largo.  A prova disso est aqui. Voc sempre foi fiel a seus relacionamentos. E eu tinha um cime incrvel disso. Guilherme lembrou-se de que costumava sair com outras garotas para negar seus sentimentos por ela. Nunca funcionou.
 No havia razo para ter cime, Mary Hellen. Aquelas namoradas nada significaram.
Ela estava grata por ouvir aquilo, mesmo aps tantos anos.
 Isso refora minha tese. Voc no se importava com as meninas, e ainda assim namorava uma de cada vez.
Guilherme enfiou as mos nos bolsos da cala, olhando a distncia.
 Tentava no ser como papai.
 Bem, e parece que foi bem-sucedido.
Mary Hellen o observou, to tenso, to formal. Sentia que mais uma vez escapava de seu alcance e no tinha nada que pudesse fazer para evitar isso.
 O que o faz crer que no conseguir continuar sendo o Guilherme sincero que eu conheci?
 A aposta  muito alta, e prefiro no arriscar. Mary Hellen o estudou, calada, por um longo momento.
O vazio dentro dela aumentou.
 Voc no  como seu pai. No entanto,  igualzinho a Ethan. Nenhum dos dois achava que eu era boa o bastante.
 Isso no  verdade!  Tentou se aproximar dela, mas Mary Hellen recuou, os olhos a acus-lo.
 Ethan sempre procurou por algo melhor, sem jamais me dar a chance de tentar ser boa o suficiente para ele. E voc  pior ainda. No quis nem sequer uma amostra antes de tomar a deciso de partir.
As pupilas de Guilherme estavam to escuras quanto sua alma. Descartava a nica coisa em sua existncia que tinha valor.
 Isso nada tem a ver com sexo, Mary Hellen.
 Ora, e na certa tambm no tem com amor. Porque pessoas que se amam tentam tudo o que podem para preservar o que possuem de mais importante.  Algo despedaou-se dentro dela. Mary Hellen chegou a seu limite.  E sabe o que mais? Cansei. Voc pode ir embora. No me importa mais.
E caminhou resoluta para a sada, mas parou com a mo na maaneta. Fitou-o por sobre o ombro.
 E eu estava enganada. Voc  igualzinho a seu pai. No por ser infiel, mas por no ser capaz de amar.
A porta bateu aps sua passagem.
E espantoso como uma pessoa consegue continuar se movimentando aps ter seu corao feito em pedaos, Mary Hellen dizia a si mesma.
Todos na creche perceberam isso e tentavam agir como se nada soubessem. Mas era impossvel no notar que o riso deixara seu semblante, que a alegria abandonara sua voz. Mas ela estava tentando. Com todo o empenho.
Margheritte, Penny Sue e Gwenyth estavam sendo muitssimo calorosas, jamais puxando assuntos mais pesados do que a escolha do lanche da tarde. Mary Hellen as abenoava por isso, e por no fazerem perguntas, no tentarem ajudar. Sua situao no poderia ser solucionada.
A nica coisa que a poderia vir em seu socorro era o tempo. E ela teria muito disso. Sozinha, pensava, na sala que transformara em quarto de beb, trocando a fralda de Steffie.
 No se envolva com homens, por favor, Steffie  falava para o rostinho redondo e corado que lhe sorria.  Eles significam encrenca.
 Voc tem razo.
Assustada, levantou a cabea e deparou com Guilherme parado  soleira. Fazia dias que ele no aparecia na creche. E ela no tentara v-lo.
"Ele est aqui para dizer adeus."
Terminando de trocar Steffie, Mary Hellen ergueu a garotinha no colo, tentando agir como se sua pulsao no estivesse em disparada.
 Sobre que parte eu tenho razo?
Havia sombras escuras em torno dos olhos dele. Pelo visto, assim como Guilherme, Mary Hellen tambm no andava dormindo bem.
Ele, devagar, entrou no aposento.
 Faa sua escolha.
 Parei de faz-las. Deixei de ter esperanas.  Guilherme tentou captar um melhor ngulo do rosto dela, para conseguir ler sua expresso.
 Deus, espero que no seja verdade
Ela colocou Steffie de volta no cercado na sala contgua. O expediente j fora encerrado. Penny Sue e Rebecca tinham ido embora, assim como as crianas. Margheritte j viera se despedir. Gwenyth passaria a noite no imvel que alugara.
 Por qu?  Com esforo, Mary Hellen manteve-se firme, disfarando a emoo.  O que isso pode importar para voc?
Comeou a recolher os brinquedos espalhados.
 J encontrou um substituto para seu lugar?  Guilherme passou a ajud-la na tarefa.
 Parei de procurar.
 Significa que pretende ficar? Ele a encarou. Seria tarde demais?
 Isso depende.
"No, no comece, Mary Hellen. Voc sabe o que acontece quando resolve acreditar."
 Do qu?
 Se serei capaz de fazer com que voc me perdoe. Um sorriso brincou nos lbios dela.
 Perdoe que parte?
 Todas elas. Tenho sido um tolo.
O sorriso dela se alargou.
 Continue. Estou gostando de ouvir. Guilherme passou a crer que talvez tudo ficasse bem.
Que no era tarde para consertar as coisas entre os dois e recomear.
 Tenho fugido assustado da sombra de meu pai por tantos anos e no entanto sem me dar conta, estava fazendo tudo o que eu no queria fazer: magoando voc. Empurrei-a para os braos de Ethan e permiti que ele a ferisse.
 Voc no tinha uma bola de cristal para adivinhar.  Mary Hellen sempre perdoara fcil. Mas ele, no.
 Entretanto, se eu tivesse um pouco de f, poderia
 Eu tinha f suficiente para ns dois, Guilherme.
 Sim  Ele compreendeu o significado daquilo.  Isso quer dizer
Comovida, Mary Hellen beijou-lhe a face.
 que como eu fiz uma referncia ao passado, usei a gramtica correta. Garanto que nem o sentimento, nem a f terminaram.
 Ento, voc se casaria comigo?
Mary Hellen ficou boquiaberta, mas logo se recuperou.
 S h um meio de saber.  Guilherme prendeu o flego.
 E qual ?
 Pea para que eu me case com voc. Guilherme tomou-lhe as mos a fitou nos olhos.
 Mary Hellen, quer se casar comigo?
 Oh, Guilherme, isso  to inesperado! Preciso pensar a respeito.  Deu-lhe as costas. Em dois segundos, tornou a virr-se para encar-lo.  J pensei! A resposta  sim!
Sammy de repente comeou a balbuciar, chamando sua ateno. Mary Hellen no podia esquecer suas responsabilidades.
 E quanto aos gmeos? Apeguei-me demais aos dois. No quero desistir deles, a no ser que seus pais sejam encontrados. E com eles voc no ganharia apenas uma esposa, e sim toda uma famlia.
 Eu no poderia ficar mais feliz.  Guilherme correu os olhos por seu rosto, enquanto permitia que o amor que sempre sentira por ela enfim emergisse, desenfreado.  No a mereo, Mary Hellen.
Ela deu uma risadinha.
 E verdade. Mas ns daremos um jeito nisso. Guilherme a abraou.
 Eu te amo, minha querida.
Como pudera pensar que seria capaz afastar-se dela outra vez? Uma j fora duro o bastante, duas seria impossvel.
Mary Hellen cerrou as plpebras, saboreando o som daquelas palavras.
 Repita.
 Eu te amo, Mary Hellen. Muito. E repetirei isso quantas vezes voc desejar, quantas forem necessrias para convenc-la.
Mary Hellen arqueou uma sobrancelha, travessa.
 Conhece aquele ditado?
 Qual?
 As aes falam mais alto do que palavras? Ele achou graa.
 Eu posso agir,  s voc querer  assegurou-lhe, os lbios a milmetros dos dela.
 Estou contando com isso


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